A morte e o morrer nas Constelações Familiares.


Por René Schubert.


O olhar da psicologia para a morte e o morrer que constantemente se presentificam fenomenologicamente nas constelações familiares.


Tanatologia


É uma palavra de origem grega: Tanathos - o deus da morte e Logia – ciência, estudo.

O psicólogo brasileiro Aroldo Escudeiro define: “Uma ciência que estuda os processos emocionais e psicológicos que envolvem as reações à perda, o luto e a morte”. Evaldo D'Assumpção define a Tanatologia como a ciência que estuda a vida através da ótica da morte.


Hoje encontramos a Tanatologia no meio médico, nos meios de saúde em geral, na psicologia e psiquiatria, na filosofia e sociologia, e até no meio pedagógico educacional.

Atualmente, quando falamos em Tanatologia são recorrentes os temas: morte, perdas simbólicas, separação, processo do luto, qualidade de morte, eutanásia, bioética, aborto, estados vegetativos recorrentes, doenças sem possibilidades terapêuticas, assassinato, suicídio, fases da morte, etc.


A morte no ocidente: Interdita


O historiador Philippe Ariès, mostrou em seu livro “O Homem diante da morte”, como esta tem tido diferentes representações a cada época, mudanças quanto às atitudes, imagens, símbolos e ritos em relação à morte, apontando o atual retrato da morte como tabu, interdito pela sociedade.


Assim temos o atual conceito no qual a morte deixa de ser familiar e passa a algo temido, perigoso e velado. Um fator material importante que impulsionou esta transformação foi à transferência do local da morte. Já não se morre em seu domicílio, no meio dos familiares, mas sozinho no hospital ou locais determinados para isto. O velório deixa de ser realizado na casa da família, pois cada vez menos é tolerada a presença do morto em casa, tanto em função de questões de higiene quanto por falta de condições psicológicas de vivenciar esta situação.


Tornou-se recorrente evitar falar de morte, bem como de ver os corpos de pessoas mortas. Tudo é muito bem maquiado, lacrado e velado. A morte do outro traz à consciência a ideia de nossa própria finitude, e por isto acabamos afastando o morto e a morte de nossas vidas.

Com esta postura, estimulamos além da negação e repressão de um fator natural à vida, o maior apego às coisas materiais e às pessoas e uma grande dependência de ilusórias promessas de continuidade e imortalidade. Tal postura cega e tosca, tornará as perdas que temos em nosso caminhar ainda mais doloridas e, provavelmente prolongaremos demasiadamente o sofrimento em nossa vida.


Rituais de passagem


Colin Murray Parkes, psiquiatra britânico, fala sobre a importância dos rituais fúnebres para que se possa entrar em contato com a finitude e entrar em processo de luto.

“Estudei uma tribo de pescadores, nas Filipinas, que chega a fazer um ritual substitutivo para lidar com uma situação dessas. Quando um dos integrantes da tribo morre no mar e seu corpo não é resgatado, a família faz uma estátua e a veste com as roupas do morto. Eles acreditam que, assim, a alma do falecido encarnará na estátua. E é essa estátua que enterram”.


Também aponta como percebe que na cultura oriental há um melhor preparo para lidar com a morte “No Japão, eles fazem oratórios com sinos, que, segundo crêem, invocam a pessoa morta a cada vez que são tocados. Desse modo, acreditam manter-se em contato com o espírito de seus mortos. De certa maneira, é isso que a psicoterapia tenta fazer com os enlutados: ajudá-los não a esquecer seus mortos, mas a achar um lugar para eles em sua vida.”


Bert Hellinger fala também da importância do ritual de passagem e da reverência e honra aos que se foram com gestos simples, como por exemplo, acender uma vela. Hellinger menciona um ritual entre os Zulus no qual o morto é enterrado e após um ano, num ato ritualístico é trazido novamente para dentro de casa. Seus familiares pegam um galho e imaginam que o Ente se encontra sentado neste. Ele está dentro de seu lar. Uma parte da oca é reservada para aqueles que já foram e lá tem seu lugar.

Rituais parecidos tem-se entre os japoneses – os altares aos antepassados e entre os índios norte americanos – os Totens e terras sagradas.


O ritual de passagem é uma forma de presentificação e reconhecimento do que já se foi. Temos as mais diversas culturas, crenças, locais e a mesma busca de cuidar e honrar seus mortos, cada qual de uma forma:


- O enterro

- A cremação

- O desmembramento

- A mumificação


Os Marcos, Túmulos, Totens, Obeliscos, Mausoléus, Pirâmides, Símbolos de Passagem. A lembrança do que foi, para o vivo – e o lugar, para o que se foi.


A elaboração da perda: Luto


Ao se falar de morte, inevitavelmente, o tema nos conduz ao processo do luto, que se refere ao conjunto de reações diante de uma perda. Lembramos que existem mortes e processos de luto por ausências, separações e vivência de desamparo. O processo de luto se dará diferentemente para cada pessoa. Quanto maior o investimento afetivo, quanto maior o apego, tanto maior a energia necessária para o desligamento e elaboração da perda

Para Sigmund Freud: “luto é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, a perda de um objeto externo e/ou interno, como o país, a liberdade, o ideal de alguém e assim por diante”.


Esta perda tem uma dinâmica externa, visível à sociedade e interna, silenciosa e invisível. Muitas vezes se faz o luto pelo objeto externo, pelo corpo, pelo que havia na realidade, mas não se consegue fazer o luto pelo objeto internalizado, idealizado. E a não vivencia e elaboração deste processo de luto e perda, prende simbolicamente a pessoa a esta situação, por mais tempo que tenha se passado.


A psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross descreve alguns estágios de sentimentos e afetos que se seguem à perda, que variam de pessoa para pessoa, e que podem inverter sua sequência, mas que estão envolvidos no processo de elaboração e luto:


- Negação e isolamento;

- Raiva;

- Barganha;

- Tristeza e desânimo generalizado;

- Aceitação.


Também afirma que alguns processos são importantes para elaboração do luto, entre os quais: (1) reconhecer o luto, (2) reagir à separação, (3) recolher e re-vivenciar as experiências com a pessoa perdida, (4) abandonar ou se desligar de relações antigas, (5) reajustar-se a uma nova situação, (6) reinvestir energia em novas relações.


Os profissionais Aroldo Escudeiro,