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Abordando a temática da sexualidade com nossas crianças: informação e prevenção.

Por René Schubert.

Quanto ao tema 'prevenção da pedofilia', ‘prevenção ao abuso e exploração sexual infantil’ obter informações sobre esta é o primeiro passo. Informar-se, debater e refletir sobre o tema é a primeira forma de prevenção. Só que neste ponto surgem dúvidas nos pais, educadores, adultos de forma geral: como e de que forma abordar o tema pedofilia, abusos e exploração sexual, com as crianças?


Os adultos se informam, buscam conhecimento e aplicam leis e saberes a partir de seus estudos e vivências. Podem se informar sobre a pedofilia, mas e quando a questão é falar sobre pedofilia à crianças? Como nomear isto para uma criança? A partir deste ponto percebemos que a questão não se restringe só ao debate da pedofilia, antes disto vem à tona o falar sobre sexualidade com a criança. Assunto considerado pela maioria dos adultos como "difícil e cabeludo". Por ser considerado desta forma, este acaba não sendo abordado e discutido com as crianças. A família acha que a criança é muito nova e posterga, dizendo que na escola ela estará "mais madura" e será instruída. Na escola, os educadores partem do princípio que a criança já foi instruída em casa e não querem tocar neste assunto "delicado e difícil", com medo de "excitar e levar a criança a maus pensamentos e comportamentos". Falar de pedofilia, abuso sexual, que seria um passo posterior, é possível desta forma? Como explicar a questão do corpo, da intimidade e limites do corpo, do que é público e do que é da privacidade, de toques e carícias, de abuso e contato sexual, sem antes abordar a sexualidade?


Desta forma ninguém toca a "coisa". Assunto “tabu”. A coisa sexual, que é motivo de tantas piadas, brincadeiras, jogos e histórias no universo adulto e paradoxalmente tão negada ao universo infantil. Como se a criança não fosse sujeito de um corpo, de sensações, de desejo, de questionamentos, enfim de uma sexualidade.


Antes de mais nada é importante definirmos sexualidade: após as descobertas da psicanálise no começo do século passado (especificamente com a obra publicada por Sigmund Freud em 1905) a sexualidade mudou um pouco de significado, deixando de ser um sinônimo de ato sexual para abranger todos os movimentos de busca de prazer e satisfação. A sexualidade engloba uma série de excitações e de atividades presentes desde a infância que proporcionam grande prazer na satisfação de uma necessidade fisiológica fundamental (exemplo: respiração, amamentação, função de excreção, toques pelo corpo e milhares de outros).


Inclui-se na sexualidade, fora o próprio ato sexual, toda uma série de excitações corporais, a sensualidade, a curiosidade pelo corpo (próprio e o alheio), a sedução, modos de se pintar e vestir, os jogos sexuais, os comportamentos sexuais e assim por diante. Sexualidade: essa palavra contém em si um erro comumente cometido por nós. Sexualidade não quer dizer apenas o sexo ou ato sexual. Desta maneira, quando se fala de sexualidade infantil, não se quer dizer ato sexual ou movimentos de sexualidade erótica e/ou pornográfica da criança. A sexualidade infantil é a busca pela satisfação, por sensações prazerosas independentes de ato sexual. Esta busca está inicialmente ligada às sensações corporais e, posteriormente, às duvidas e questionamentos quanto ao corpo, suas funções, e principalmente, seu surgimento e origem.


Faz parte da opinião popular, quando se fala sobre sexualidade, achar que a mesma está ausente na infância e só despertará no período da vida designado de puberdade. Mas esse não é apenas um erro qualquer e comum, mas sim um equívoco de graves consequências, pois é o principal culpado de nossa atual ignorância sobre as condições básicas da vida sexual - Sigmund Freud abordou isto em 1905, e mesmo passado tanto tempo, ainda hoje encontramos muitas dúvidas sobre este tema, principalmente quando confrontados com este por intermédio das tentativas e descobertas curiosas de nossas crianças (independente de uma idade maior ou menor). Ainda hoje somos surpreendidos e não acreditamos na sexualidade infantil.


O fato é que ela existe e, cedo ou tarde vai se perfilar frente aos nossos olhos e ouvidos com perguntas insistentes tais como: "Pai, a cadeira tem pipi? Cadê o pipi da Maria? Meninas tem pipi pequeno? De onde veio a Maria? Por que meu pipi fica assim? Mãe por que o meu não é igual o do Pedro? Cadê meu pipi? Como o bebê foi parar dentro da mamãe?" e por meio de tentativas de descoberta corporal pela criança.


A aventura do descobrimento começa já nos primeiros meses, quando o bebê experimenta o prazer de explorar o próprio corpo, e se acentua nos anos seguinte quando sua atenção se volta para o corpo dos pais e de outras crianças.


As descobertas corporais na criança são tão naturais quanto aprender a andar, falar e brincar - todas as crianças passam por essa fase e fenômenos. Mas o adulto nega este acontecimento ou muitas vezes olha para o mesmo como se fosse uma aberração na criança.


Há uma clara incongruência na linguagem sexual do adulto, que é erótica, com a linguagem sexual da criança, que busca prazer por meio da descoberta de seu corpo - a primeira linguagem é genitalizada (adulto), a segunda é sensual (infantil). O adulto interpreta os fenômenos da sexualidade infantil a partir de seu referencial, por isso julga-a erroneamente pela via do erotismo (FERENCZI,1932).


Na maioria das vezes, a distância entre a moral do universo adulto e a ausência de pudor infantil resulta em ensinamentos cheios de "tira a mão daí, isso não pode fazer porque é feio, nojento, toma vergonha na cara, que absurdo, me respeite seu safado" - tratar o assunto com a naturalidade que merece é condição fundamental para possibilitar um diálogo aberto e saudável adulto-criança. Ralar ou castigar a criança com reações extremadas quando esta está descobrindo seu corpo é pior, por que ela dificilmente vai abandonar o que lhe dá prazer, só o fará escondido. Muitas vezes a repressão do adulto é entendida pela criança como se ela fizesse algo muito errado e que fosse sujo ou inadequado. A criança fica com uma imagem deformada do que é a sexualidade e como reagir aos fenômenos de seu corpo. A sexualidade deixa de ser algo natural para tornar-se algo vergonhoso, motivo de receio ou fruto proibido.


E é exatamente por intermédio destas tentativas infantis de descoberta e questionamentos voltados ao seu corpo e origem que o adulto tem a chance de abordar o que é sexualidade humana, suas apresentações, conceitos (do que é adequado, do que é privado, da intimidade) e repercurssões.


O homem, sendo um ser Bio-Psico-Social (é influenciado por fatores biológicos tais como a genética, hereditariedade; fatores psicológicos, tais como sua história pessoal, emoções, sentimentos, caráter entre outros e fatores sociais como a cultura em que nasceu e regras e leis sociais as quais responde como responsável, como cidadão), desenvolveu-se desde a infância a partir de suas relações reais e/ou fantasiosas com as figuras materna e paterna (nisso inclui-se quem faz a função materna e função paterna). A base de sua segurança e senso de orientação estão nesses primeiros relacionamentos - o olhar e falar do outro traduz e apresenta-lhe a realidade. Sem a presença de outros surgem sentimentos de possível inadequação e insegurança. Todo ser humano adquire grande parte do senso de sua própria realidade pelo que os outros dizem e pensam a seu respeito.


Aquele que representa a figura de respeito e cuidado, o responsável pela criança será o tradutor da realidade para a criança e até para o adolescente - suas intervenções, falas, atos mostrarão ao jovem o que é saudável, o que é inadequado, o que socialmente se espera dele e o que não é aceito e punido pela lei. Por isso a função materna e/ou paterna é tão importante: ela direcionará e dará noções sociais e orientações para os movimentos sexuais do infante. Cabe àquele que executa tal função inicialmente escutar o que o a criança tem a dizer sobre suas investigações ou investidas sexuais, para a partir deste momento debater, explicar, conversar sobre o fenômeno.


Falar de sexualidade é difícil e embaraçoso para os pais e, é por esta razão que, a educação sexual nas escolas e a informação adequada disponível na comunidade, exercem um papel tão importante. Mas para que a comunicação com a criança e o adolescente possa ocorrer, tanto em casa como no meio escolar, deve ser proporcionado um ambiente de abertura, compreensão, de sinceridade e de aceitação e respeito pela criança e suas dúvidas, sem fazer julgamentos de valor sobre as mesmas ou recriminá-la por suas questões ou apresentações.


Uma ressalva se mostra importante: não dispare as informações de uma vez para a criança ou adolescente, esclareça e pontue a partir das dúvidas ou comportamentos apresentados no momento. Se a criança pergunta por que a irmã não tem pipi, não é preciso explicar o ato sexual ou a gravidez, explique apenas a diferença entre homens e mulheres, meninos e meninas. Responda o que foi perguntado sem muitos rodeios ou elucubrações. Use palavras e expressões que sejam próximas à criança e esteja aberto para as "geralmente comuns teorias fantasiosas" que a criança lhe apresentar - escute atentamente e depois pontue o que é real e o que é fantasioso. A criança coloca suas dúvidas aos poucos e se lhe respondemos pontualmente teremos sua confiança e interesse, agora se a ludibriarmos ou tentarmos explicar cientificamente e verborragicamente tudo, ela procurará outros meios para satisfazer suas dúvidas e fantasias.


Sintetizando, existe um conjunto de informações muito importantes a serem transmitidas às crianças e aos adolescentes:


  1. Conversar sobre sexualidade (órgãos e fisiologia/funcionamento do aparelho reprodutor, intimidade corporal, ato sexual, reprodução, gravidez, parto, entre outros), quando isto mostrar-se oportuno ou necessário;

  2. Abordar conceitos como intimidade e privacidade; Espaço Pessoal; Importância da higiene e cuidados com o corpo

  3. Manter-se informado(a) sobre os movimentos da sexualidade no âmbito nacional e internacional (Exemplos atuais: os relacionamentos casuais, ficar / rolo / namorar, aumento nos casos de divórcio e diminuição de casamentos, sexo virtual, Homo-hetero-, Trans- e bissexualidade como manifestações atuais no tecido social, Amor livre, entre outros);

  4. Abordar a importância da comunicação e respeito com e pelo(a)s parceiro(a)s;

  5. Informar sobre os riscos de saúde da atividade sexual descuidada (doenças sexualmente transmissíveis);

  6. Esclarecer quais os riscos e consequências da gravidez na adolescência;

  7. Informar quais os métodos contraceptivos;

  8. Explicar onde encontrar mais informação ou procurar ajuda profissional (ginecologista, urologista, sexólogo, psicólogo, etc);


A partir do momento em que o tema da sexualidade for mais tranquilo e motivo de aproximação entre pais e filhos, o debate sobre temas como o uso que se faz do corpo na modernidade, abuso e assédio sexual, pornografia infantil, e pedofilia fluirá com mais facilidade e sem tantos rodeios, remorsos, banalizações e preconceitos.


Literatura utilizada para o presente artigo:


ARANTY, L.R. Sexualidade: A difícil arte do encontro. Editora Ática, Série Discussão Aberta 2, São Paulo, 1998.

FERENCZI, S. Confusão de línguas entre adultos e crianças (1932). (in) MASSON, J. M. - Atentado à verdade. J. Olympio Editora, Riod de Janeiro, 1984.

FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade infantil (1905). Imago, Rio de Janeiro, 2002.

MACEDO, L. O despertar do sexo - artigo da Revista da Folha, 7 de setembro de 2003, ano 12, N º 586, São Paulo.

RAPPAPORT, C. R. As fases do desenvolvimento. Vol. 1, EPU, 1981, São Paulo.

SUPLICY, M. & Colaboradores - Guia de Orientação sexual - Reedição Diretrizes e Metodologia. Casa do Psicólogo, São Paulo, 2004.

SCHUBERT,R. "Cuidado com o assédio de menores", na Revista 7 Dias com você, Editora Escala, Edição 659, São Paulo, Janeiro 2016.

Schubert, R. Orientação Sexual com crianças especiais: Um olhar sistêmico. Revista Filosofia, Pensamentos e Práticas das Constelações Sistêmicas – nº 4. Editora Conexão Sistêmica, São Paulo, 2015.

SCHUBERT,R. (2008) Abordando a temática da sexualidade com nossas crianças: informação e prevenção (in) https://reneschubert.blogspot.com/2008/05/abordando-temtica-da-sexualidade-com.html

SCHUBERT, R. Orientação Sexual com crianças especiais relato de experiência. In: Ana Marisa Brito (Psicóloga); José Santos (Professor); Pedro Santos (Professor). (Org.). Contributos ao estudo da Deficiência Mental. Universidade de Algavea, Portugal, 2007

WINNICOTT, D. W. A família e o desenvolvimento individual. Ed. Martins Fontes, 2ª ed., São Paulo, 2001.

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