Animal doméstico: benefícios e trocas que ampliam nossa saúde.

Por René Schubert


“Cães amam seus amigos e mordem seus inimigos, bem diferente das pessoas, que são incapazes de sentir amor puro e têm sempre que misturar amor e ódio em suas relações.”

Sigmund Freud

Texto reflexivo, baseado em uma entrevista feita em 2011 na qual se levanta a importância para nossa saúde psíquica, emocional, relacional e social da presença de um animal de estimação em nossa casa, em nossa vida. Um animal doméstico. Ao qual dedicamos nossos cuidados e afetos, que são retornados com muita dedicação, lealdade, companhia e afeto por estes seres maravilhosos.


Sigmund Freud, pai da psicanálise, acreditava que manter animais de estimação na sala durante as consultas era um ótimo jeito de confortar seus pacientes. O neurologista e psicanalista teve alguns cachorros e em diversos textos afirmou a importância destes e da relação com eles para nossa saúde de forma geral.


Sigmund Freud em seus diários e anotações clínicas, observava que seu cachorro da raça chowchow, chamado Jofi, era um “termômetro” de emoções e do ambiente. Descrevia como o mesmo se afastava de pacientes ansiosos e como interagia com os mais amigáveis. Tais anotações são as primeiras menções ao uso de cães para fins de diagnóstico e terapêuticos.


Atualmente temos diversas iniciativas que incluem animais para auxiliar, terapeuticamente, no tratamento e acompanhamento de pacientes em hospitais, asilos e unidades sociais, educacionais e de saúde.


Entre algumas das atuais designações temos a Pet terapia, Terapia assistida por animais, Zooterapia, Equoterapia, entre outras. Nestas os animais tornam-se “co-terapeutas”. Auxiliando aos profissionais de saúde e educação, facilitando nos tratamentos à crianças, jovens, adultos e idosos.

1) O que geralmente leva alguém a adotar um animal?

A relação Homem-Animal remete aos tempos antigos, quando o homem percebeu que poderia exercer certo poder de controle sobre certas espécies, dominando-as e fazendo-as obedecer a sua vontade. Desenvolveu-se assim, uma relação de poder e de troca com estes animais. Alguns deles eram usados para a caça; outros para transportar utensílios e auxiliar na locomoção de pessoas; outros para produção de alimentos ou mesmo para posterior abate. No entanto, algumas espécies se destacaram pela importância psíquica que desenvolveram junto ao homem: o animal doméstico. Este se tornou também companhia e parte importante do dia a dia do homem e de sua família. Pela relação afetivo-instintiva, tornou-se parte da família. Houve então, clara distinção entre o animal selvagem, rural, urbano e o doméstico – este último ocupando um lugar fundamental na dinâmica sistêmica de muitas famílias. Como grande destaque está o cachorro, considerado popularmente como “o melhor amigo do homem”.


Cachorro, gato, diferentes tipos de aves, jabutis, coelhos, peixes, cada qual com suas características próprias, todos têm um ponto comum: são animais domésticos (Doméstico: relativo à casa, ao lar).


A carga afetiva, depositada em qualquer um destes animais, ressalta sua importância na dinâmica familiar. Eles podem: proteger o lar, como um cachorro; fazer companhia, como um gato ou pássaro; tranquilizar e acalmar pelo movimento como os peixes e assim por diante.


Contudo, o que realmente importa é o valor sentimental que o animal tem para o seu dono – existe carinho, saudade, preocupação, receio, amor – fazendo deste um integrante do sistema familiar.


No filme “Avatar”, isto é simbolizado pela vinculação fisico-afetiva que o povo alienígena do planeta Pandora tem com diferentes animais deste planeta – eles, por meio da conexão física e afetiva com os animais, sentem o que estes sentem, e os animais da mesma forma com os seus donos. É uma relação de poder, dominação, troca e respeito.


A adoção de um animal contém uma troca afetiva, uma vinculação. O animal passa a ocupar um lugar afetivo na vida da pessoa que se torna “sua dona”. Um cuida do outro. E este cuidado e troca estimulam diversos sentimentos e emoções no homem, geralmente benéficas e construtivas.


Certa vez uma paciente solteira, de aproximadamente 45 anos, que possui, atualmente, um canário e um peixinho dourado em seu apartamento, me contou como se lembrava de criança das “traquinagens” que fazia com seus irmãos e com os cachorros no sítio dos pais. Os cachorros eram membros integrantes da trupe, não havendo muita distinção pelo fato de serem cachorros. Eles estavam lá e participavam ativamente, contribuindo com risos, abraços, arranhões, quedas, pulos, choros e tantas outras sensações e experiências fundamentais para nós, humanos. Esta paciente trazia tais vivências marcadas em sua memória e em seu corpo.

2) Como o convívio com os animais pode beneficiar uma pessoa?

Os animais, por sua relação instintiva com os humanos, trazem à tona os afetos mais primitivos e despidos de máscaras, do homem. É como se o homem se entregasse afetivamente quando afaga a cabeça de um cachorro ou quando recebe por parte do papagaio, o direito de lhe fazer cafuné. É um sentimento de excitação e entrega comum às crianças - livre de preconceitos, medos, rituais – é a troca afetiva pura.


A fidelidade, lealdade e entrega do animal também comove e toca o ser humano que vê nestes, exemplos de relações afetivas e troca relacional positiva.


Em consultório, quando há pacientes muito resistentes ao tratamento, ou com dificuldade em lidar com certos afetos, como o luto, a perda, a alegria, a troca, usa-se como técnica, a zooterapia. Por meio do contato com o animal, muitas vezes o paciente vai afrouxando sua rigidez e seus receios, trazendo à tona seus afetos e permitindo a catarse afetiva. Animais são excelentes co-terapeutas, pois agem diretamente pela linguagem instintiva, facilitando a aproximação e a troca afetiva. Por exemplo: certo paciente com quadro diagnóstico de autismo, 6 anos de idade, apresentava muito medo, ficando recolhido nos cantos do consultório. Sua atenção foi despertada quando incluí dois jabutis nas sessões. Estes, quando o garoto se aproximava abruptamente, se escondiam no casco, frustrando-o. Aos poucos, por querer contatar com estes divertidos e medrosos animais, foi observando e aprendendo a se aproximar aos poucos, fazendo com que os jabutis não se escondessem e, finalmente, permitissem que ele lhes acariciasse o casco e as patas. Tal conquista foi marcada pela flexibilidade em sua habitual retração e pela presença de expressões sonoras de prazer e alegria, anteriormente raras. Os jabutis passaram a ser presença de destaque e constante no tratamento deste paciente que, hoje, brinca com cachorros e também monta a cavalo, nas sessões de Equoterapia.


Em ambulatórios clínicos infantis e hospitais psiquiátricos, muitas vezes o animal é utilizado como ferramenta clínica, pois facilita a aproximação, a troca, o contato, auxiliando no tratamento e no quadro clínico dos pacientes.


Os filmes da Walt Disney perceberam a importância simbólica do animal em nossa vida e a utilizaram em diversos filmes voltados para o público infantil e adulto. Tais filmes despertam e estimulam diversos afetos na plateia, transformando a experiência cinematográfica em um veículo para expressão afetiva de alegria, tristeza, raiva, amor, entre outras.

3) Para os casais, especificamente, quais seriam os benefícios de ter um animal?

Muitas vezes, casais recorrem a um animal doméstico como um treino para a gestação e criação de um filho. A questão de vínculo, responsabilidade, rotina de cuidados, alimentação, médicos, disciplina, etc. Obviamente, são relações completamente diferentes, mas o animal doméstico também exige cuidados diários, recreação, atenção, brincadeiras. Assim, para muitos casais, o animal funciona como uma divertida prévia, afastando muitas fantasias e receios envolvidos no cuidar de um ser indefeso, menor, dependente.

4) Que tipo de animal seria recomendado, por exemplo, para quem é solteiro e mora sozinho (como companhia)?

Muitos animais, por suas características dinâmicas e de personalidade, atraem pessoas que estão em sintonia com estas características, ou seja, uma pessoa mais introspectiva, racional poderia se dar muito bem com um gato, enquanto uma extrovertida e sentimental preferiria um cachorro. Entretanto, é difícil estabelecer uma regra generalista, podemos citar exemplos, mas estes não vão caber a todos.


Em minha experiência com Equoterapia - tratamento por intermédio da montaria de equinos - percebo que a aproximação e vinculação com o cavalo por parte do paciente variam muito de acordo com as características individuais de cada um. Alguns têm medo, outros nojo, alguns demonstram admiração, alegria e tais reações são captadas rapidamente pelo animal, que por sua parte reage a estes. Demora-se algum tempo para estabelecer uma sintonia e vinculação com aquele animal, mas depois de