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Como nossos pais

Por Aline Pongelupi Nóbrega Borges.


Saindo de férias procurei agradecer por todo trabalho que havia me proporcionado até aquele momento, mais que ser boa profissional precisava da sua indicação e era muito grata a tudo. Então, ele me disse assim: “lembre-se que você não representa apenas você”.


O cargo de Administradora Judicial é muito importante para o processo, nele somos representante do Juiz, somos seus “olhos”. Tinha em minhas mãos uma missão importante, precisava honra-la. Um misto de sentimentos veio à tona: gratidão e lealdade, são lindos de sentir, mas há um preço a se pagar.


A verdade é que eu estava no momento certo para a missão, tudo que vivi me preparou para ser exatamente da maneira que deveria ser, não fui perfeita, porque não sou e nunca serei, mas sou a melhor, dentro do que eu vivi.


Quando ele me disse que eu não representava somente a mim, respondi afirmativamente relacionando as pessoas que eu representava: “eu, ele, minha mãe, pai, irmãos, projetos que eu representava, meus filhos”.


É isso mesmo, não estamos sozinhos, nossas atitudes tem consequências que não atinge apenas a nós. Carregar todos que vieram antes de nós, é pesado, mas também reconfortante. Bert Hellinger tem um pensamento cheio de amor quando fala dos nossos ancestrais: "atrás de mim estão todos os meus ancestrais me dando força. A vida passou através deles até chegar a mim. E em honra a eles eu a viverei plenamente."


Somos leais aos nossos, somos representantes de todos que vieram antes. Apesar dessa lealdade muitas vezes não estar em nossa consciência, costumamos ser leais inclusive em situações que não nos são favoráveis. Repetimos ciclos, resgatamos situações de injustiças, compensamos o sistema.


Como nossos pais, música famosa na voz de Elis Regina, nos mostra exatamente o ciclo de repetições em que vivemos:


“Minha dor é perceber

Que apesar de termos feito tudo, tudo

Tudo o que fizemos

Nós ainda somos os mesmos

E vivemos

Ainda somos os mesmos

E vivemos

Ainda somos os mesmos

E vivemos como os nossos pais”


Lutamos por vezes para fazer diferente e acabamos repetindo os mesmos erros. Nossa lealdade é tão grande que quem mais negamos é quem mais copiamos. No estudo das constelações familiares aprendemos que cada um teve e tem um papel importante em nossas vidas e precisamos reconhecer seu esforço.


Bert Hellinger afirma ainda que “uma pessoa está em paz, quando todas as pessoas que pertencem a sua família tem um lugar em seu coração.” Precisamos reconhecer, respeitar para poder ter paz. Isso porque, por conta da lealdade do sistema, aquele à quem você nega precisará ser compensado por tanto desdém. E o sistema é mais forte que você.


Somos representantes! Representamos nosso ciclo de amizade, nosso trabalho, o meio que vivemos, e principalmente nossa família: aqueles que estão aqui e aqueles que vieram antes. Ninguém consegue mudar o ciclo sem o reconhecimento aos ancestrais.


O Senhor tinha razão Doutor, não estou representando somente a mim, por isso faço o melhor, dentro de minhas possibilidades, para honrar todos os que seguem em mim. O fardo é pesado por vezes, mas é consolador saber que estamos não estamos sozinhos.


Aline Pongelupi Nóbrega Borges

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