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Constelações familiares e a resolução de conflitos.

Por Marcos de Castro.


É preciso olhar com amor e apreço para cada processo, pois ele representa a vida de muito mais de uma pessoa; efetivamente, guarda ressonância com todos aqueles que pertencem ao sistema familiar daquele que buscou o Poder Judiciário.”


Esse artigo escrito por nosso querido parceiro Marcos de Castro traz uma visão incrível sobre as Constelações e a aplicação na resolução de conflitos na Justiça:


Quando falamos de Constelação Familiar imediatamente nos remetemos à figura de Bert Hellinger, filósofo, teólogo e terapeuta alemão que apresentou à humanidade, por meio de suas observações, Leis que imperam em todos os sistemas, notadamente no âmbito familiar. Hellinger classificou como “Lei” justamente porque não importa se você a conhece ou não, ela irá atuar indistintamente a todos. Este é um aspecto bastante peculiar. São “Leis Naturais” que incidem mesmo que não tenha ocorrido qualquer assentimento prévio de vontade. Do mesmo modo que a “Lei da Gravidade” impera em nossas vidas, assim também acontece com as “Ordens” descobertas por Bert Hellinger. Elas estão em plena atividade e alcançam a todos.



A Constelação Familiar tem sua base puramente fenomenológia. De forma bastante simples podemos dizer que se trata de uma postura que propõe “aceitar as coisas como elas são”, “aceitar aquilo que é”. Um assentimento exigente, que concorda com tudo, respeita a verdade que foi revelada e a ela submete-se. E, a partir desta verdade, surge a possibilidade de um novo caminho, talvez antes não previsto ou imaginado, mas que traz uma direção rumo à (re)conciliação. Efetivamente falamos de uma postura onde o “estado de presença” fomenta e permite que o fenômeno se apresente “por si mesmo”, livre de interferências preconcebidas.


A propósito, a preciosidade deste modelo reside no fato de que as soluções se apresentam espontaneamente, após cada um experienciar o processo como um todo. Não se trata de algo pensado, imaginado ou que, em última análise, possa ser controlado. Longe disso. Há uma essência que o homem não pode aprisionar apenas para si e por isso a solução que se apresenta serve a todos os envolvidos. Busca-se a verdade que não pode ser vista ou capturada num primeiro instante de forma racional.


Esta é a proposta oriunda da Constelação Familiar para se alcançar uma compreensão especial, que não está adstrita a um caminho estreito e limitado, mas vasto, rumo à plenitude e que, efetivamente, posiciona-se a favor da paz, pois todos os envolvidos no processo são reconhecidos. Uma abordagem que nos convida a incluir o todo, pois este todo, com suas partes evidentes e ocultas, é parte do sistema, e cada parte também preserva o seu lugar, dada sua singularidade.


Efetivamente, uma solução harmônica toma em consideração não somente as partes envolvidas no processo, mas também todo o complexo sistema que as abrange. É necessário perceber além das aparências; olhar para os fatos e todas as circunstâncias especiais que os envolvem; distanciar-se e expor-se àquilo que se apresenta. Nesta postura a decisão emerge em sintonia com uma “Força Superior” e, por esta razão, espelha ordem e reconciliação.


E como chegamos a esta imagem capaz de dissolver conflitos? Ela se revela a partir de um determinado recolhimento; exige um olhar inclusivo, que abre espaço a tudo e a todos e assim se expõe amplamente à realidade. A partir deste centro se alcança uma decisão equilibrada, que serve e contempla a todos com o mesmo respeito. Cada um recebe o necessário e o essencial para seguir adiante em sua própria força. E porque foi olhado com respeito, segue a sua marcha e toma o seu destino.


Um processo pode se arrastar por anos no Poder Judiciário dada a quantidade de ações e recursos cabíveis na tramitação do feito. E quando o processo finalmente chega ao seu termo, não raras vezes, deixa de entregar a verdadeira paz social. Essa dinâmica impulsiona à propositura de novas demandas, uma vez que as partes, mesmo após os longos anos de espera por uma solução que lhes pareça justa, ainda permanecem insatisfeitas. Seria dizer: o processo termina, mas a “lide” interna permanece entre as partes.


A fim de estimular o alcance desta meta, a Constelação Familiar já tem demonstrado excelentes resultados, inclusive com premiação ofertada pelo Conselho Nacional de Justiça. Esta abordagem aponta para uma nova direção e reconhece que o processo tradicionalmente utilizado para a resolução de conflitos teve e ainda tem o seu espaço; preserva sua identidade e importância, além de confirmar a inegável contribuição para que, neste momento, algo novo possa ser vivenciado.


O intuito desse olhar sistêmico é sempre a satisfação plena dos envolvidos. As partes deixam o Judiciário reconciliadas internamente evitando-se, desse modo, a propositura de novas ações judiciais. É preciso olhar com amor e apreço para cada processo, pois ele representa a vida de muito mais de uma pessoa; efetivamente, guarda ressonância com todos aqueles que pertencem ao sistema familiar daquele que buscou o Poder Judiciário.

A proposta do Direito Sistêmico é olhar para o conflito de uma forma mais ampla. Vamos imaginar que foi proposta uma demanda judicial. Quem são os envolvidos no conflito?


Essa é uma pergunta importante nessa visão sistêmica. Se outrora avançamos ao reconhecer que um processo judicial é bem mais que um simples número, que reflete a vida de uma pessoa, agora vamos além: o processo guarda consonância com todo o sistema familiar daqueles que estão em litígio. Vale dizer: quando uma parte apresenta um determinado conflito, não se trata apenas de uma inquietação isolada, pois, é cediço que cada ser faz parte de um grande sistema e também atua em nome desse sistema, ainda que inconscientemente.


A indignação trazida por um dos componentes desse sistema está necessariamente ligada a tantos outros que dele também são parte integrante. E aquilo que afeta um dos membros, inevitavelmente ressoa nos demais. Como um grande conjunto de engrenagens, onde cada engrenagem, que representa a parte do todo, guarda relação direta com todas as outras peças que compõem esse conjunto; um sistema de interdependência, todos ligados entre si, influenciando e sendo influenciados mutuamente e, ainda, a serviço de uma Ordem Superior.


Essa filosofia se revela muito mais ampla que uma simples técnica ou método a ser seguido de maneira exata e categórica. Exige-se uma verdadeira mudança de comportamento, inclusive do próprio facilitador, que necessariamente deve passar por um processo de capacitação para aplicá-la. Um novo modelo que fomenta e oferece suporte para sedimentação de uma postura interna onde o olhar alcance o ser humano e o respeite exatamente da maneira como ele é.


Aplicar o Direito em sintonia com as Leis Sistêmicas traz ordem para os relacionamentos humanos e convida-nos a aceitar o outro com tudo o que lhe pertence. Isto significa que renuncio qualquer desejo de que este outro seja diferente, tampouco busco repará-lo ou impor uma realidade da qual não compartilhe e, principalmente, reconheço-o como uma pessoa digna para arcar com as consequências de seus próprios atos.


Bert Hellinger é, sem dúvida, um dos maiores filósofos do século XXI. Suas compreensões transformadoras revelam-nos o caminho da reconciliação quando permitimos que o amor siga dentro da ordem que o precede e o conduz. Por meio deste modelo de resolução de conflitos, o Poder Judiciário entrega a prestação jurisdicional de forma clara e precisa e, juntamente com a sociedade, encontra o essencial em direção à paz.




Marcos Antonio Ferreira de Castro é Servidor Público Federal, Bacharel em Ciências Jurídicas, especialista em Direito do Estado e das Relações sociais e Pós-graduado em Direito Sistêmico. Palestrante e autor do artigo publicado na Revista do Tribunal Regional da Terceira Região, em parceria com o Conselho Nacional de Justiça, edição 133, com o seguinte título: “Constelação Familiar e Direito: O novo caminho rumo à paz social”.

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