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Direito Sistêmico - A postura sistêmica no exercício da advocacia.

Por Luciana Soares Buschinelli.

A postura sistêmica só se desenvolve e encontra o seu lugar através do estudo da literatura acerca do tema e, essencialmente, através das dinâmicas (vivências) de relacionamentos. Assim, para que um profissional da área esteja habilitado para trabalhar com o “Direito Sistêmico”[1], é essencial que conheça e tenha vivenciado as bases das ordens, vínculos e compensações, segundo a ciência das constelações familiares sistêmicas desenvolvida pelo terapeuta e filósofo alemão Bert Hellinger[2]. Mas não é só. A prática do “Direito Sistêmico” é um caminho fenomenológico a ser percorrido pelo advogado, sem o qual, não há o que se falar em “Direito Sistêmico” e sim em outras abordagens de resolução de conflitos. Este caminho, por assim dizer, está no estabelecimento de uma verdade útil (provisória) - livre de teorias e pressuposições, bem como, de qualquer impressão pessoal do advogado - que será verdade até que outro fato novo mostre outra realidade. Quem no caminho fenomenológico se permite construir algo, está quase sempre errado, pois a construção não alcança a alma, mas apenas a cabeça.[3] É um caminho dificílimo, pois exige do advogado extremo autocontrole e um servir sem interesse.


O caminho fenomenológico é humilde, posto que, está a serviço de algo maior. A sua prática, paradoxalmente, não busca soluções, muito embora esteja a serviço da reconciliação. Esta postura humilde é a que inclui não só o cliente, mas tudo o que vem dele; tal como foi, tal como é. Só assim o advogado conseguirá ingressar na exuberância que conduz o caminho fenomenológico.


O caminho fenomenológico exige de o seu operador um centramento (estado de presença) para dar lugar ao que denominamos de “OCE”[4] : a) OBSERVAR: O ato de observar consiste em estar inteiramente concentrado na figura do cliente. É um observar que, de modo silencioso, averigua, busca, investiga, perscruta e sonda a pessoa. Tudo é relevante; postura, o falar, tom de voz, respiração, coloração da pele e assim por diante; b) CONTEMPLAR: O ato de contemplar, ao contrário do ato de observar, não possui nenhuma concentração. Colocamo-nos em uma posição de total vazio e esperamos de modo totalmente despreocupado aquilo que se apresentará. O ato de contemplar não se preocupa em anotar os fatos, pois não há temor de esquecer o que seja relevante e, c) ESCUTAR: O ato de escutar diz respeito ao modo que o cliente expõe a sua queixa. É um escutar sem curiosidade, pois a curiosidade afasta o advogado do essencial; sem intenção de ajudar, pois a predisposição em ajudar constitui elemento conhecido a solução da controvérsia e o caminho fenomenológico visa trazer à tona o desconhecido, o invisível, tanto para o advogado, quanto para o cliente; Finalmente sem julgamentos. O não julgar exige do advogado uma renuncia na diferenciação do bom e ruim; certo e errado; justo e injusto.


O caminho fenomenológico exige, também, do advogado, coragem. Só assim será possível entrarmos em sintonia com a realidade, tal como ela é, especialmente o lado atemorizante, avassalador e terrível dos diversos destinos que se apresentam.


Ao percorrer este caminho, afloram, como relâmpagos, percepções que logo se apagam, mas que vão sendo internalizadas pelo advogado, até que disto resulta uma compreensão “chave” : pergunta e ou afirmação de algo a ser dito ao cliente que o transporta à verdade útil para a solução da sua controvérsia. É só neste momento que o pensamento do advogado se instala. Este pensamento não é racional, à vista de que nasce das percepções e compreensão de algo que, em sua maioria, não faz sentido para o advogado, mas muito sentido para o cliente, pois o conduz a um movimento interno profundo que lhe permite acessar um determinado emaranhamento[5] que está a impedi-lo de olhar o seu problema atual, tal como é, e como consequência, de encontrar uma solução adequada.


Assim, neste movimento, o cliente percorre um caminho solitário de encontro com sua própria história, momento em que o advogado se retira – como se invisível fosse – permitindo ao cliente assimilar os seus sentimentos e emoções. Dado um tempo, pergunta-se ao cliente o que se passa e o essencial para a solução do conflito – emaranhado familiar – é entregue pelo cliente ao advogado. Com base no emaranhado familiar, finalmente o advogado poderá construir um pensamento, desta feita, valendo-se das teorias sistêmicas, bem como, dos seus conhecimentos jurídicos, auxiliando o cliente no caminho da solução do seu conflito.


Finalmente, tudo isso só será possível se o cliente estiver disponível para percorrer este caminho na busca da solução do seu problema, a vista de que alguns buscam no advogado um aliado para manter suas convicções. Neste caso, faz parte da postura sistêmica, respeitar o cliente, porém, ajudando-o segundo os princípios que regem as “Ordens da Ajuda”[6], com o que, também, nos presenteou Hellinger através das suas compreensões.

[1] https://direitosistemico.wordpress.com/2010/11/29/o-que-e-direito-sistemico/

[2] Storch, Sami. A expressão “direito sistêmico”, no contexto aqui abordado, surgiu da análise do direito sob uma ótica baseada nas ordens superiores que regem as relações humanas, segundo a ciência das constelações familiares sistêmicas desenvolvida pelo terapeuta e filósofo alemão Bert Hellinger.

[3] Hellinger, Bert. A fonte não precisa perguntar pelo caminho. 1ª. Ed.2005, pg.

[4] Expressão de autoria de Luciana Soares Buschinelli

[5]“ Emaranhamento significa que alguém na família retoma e revive inconscientemente o destino de um familiar que viveu antes dele”. Hellinger, Bert. Constelações Familiares – o reconhecimento das Ordens do Amor – Conversa sobre emaranhamentos e Soluções. Ed. Cultrix, São Paulo, Edição. 2007, pg. 13.

[6] Hellinger, Bert. Ordens da Ajuda, Editora Atman, Ed.2.013, São Paulo.

Luciana Soares Buschinelli

Advogada e Administradora

Pós-Graduada em Direito Sistêmico- Innovare/Hellinger Sciencia.

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