DIVORCIEI NO DIA DO MEU CASAMENTO

Por Larisse Dias Pedrosa.



Desde pequena sonhava com o futuro casamento e os sonhos me levavam para um cenário alegre, amoroso, maduro, colaborativo e cheio de realizações – a verdadeira família da margarina.


Na mente o casamento já estava planejado, no coração o casamento não era possível.


Mas eu não sabia que entre a idealização e a realidade existia uma grande distância.


Os anos foram passando, as relações afetivas acontecendo paralelas às confusões emocionais e a solidão afetiva crescendo internamente e me acompanhando ao longo do caminho.


Na primeira fase da vida, conheci o famoso discurso:

· “Sou amada e não consigo amar da mesma maneira”.


Na segunda fase da vida, conheci outro famoso discurso:

· “Amo quem não me ama”.


Eu não conhecia os motivos que me apresentaram as duas fases, mas sabia que em ambas as fases eu tinha medo de ficar sozinha.


Escolher novos caminhos exigiria atravessar por incertezas ainda mais solitárias. E assim, eu fiz.


Várias vezes, distrai-me no percurso, me cansava com os esforços e com a espera, mas insisti na aprendizagem, com ajuda profissional e espiritual, e fui me aprofundando no desenvolvimento pessoal.


Então, chegou o grande dia: a consagração do meu segundo casamento.


Assim que chegamos no cartório, deparei-me com uma “coincidência”: o meu pai estava vestido igualmente ao meu futuro marido (rimos muito, mas eu tremia por dentro).


Foi uma cena engraçada, mas para mim, foi um convite da vida para que eu tomasse uma importante decisão:


· Ou eu permaneceria a “filhinha do papai”, casada com o papai no coração, com o “controle” de sua vida e a “segurança” de ser sempre protegida por ele, mas indisponível para um homem e pagando o preço da solidão afetiva;

· Ou eu me divorciaria do “papai” para verdadeiramente casar-me com um homem, assumindo com ele, todos os desafios da vida conjugal e correr os riscos da vida adulta.


Resultado: “Eu abri o coração e escolhi o marido”.

E o que significa deixar de ser a “filhinha do papai”?


A “filhinha do papai” é uma mulher na fase adulta que se mantem infantilizada nas relações afetivas.


Ela topa pagar o preço para se relacionar com conflitos ou viver sucessivas rejeições a dois.

Para ela é muito difícil se sentir bem ao lado de um homem:

· ou pelo fato dela perder interesse na relação e desejar ir embora;

· ou pelo fato dela sentir que falta algo na relação, vivenciar conflitos, fazer tudo para segurar a relação, mas o homem vai embora.


A “filhinha do papai” não está disponível para um homem possível e se abre para homens que também não estão disponíveis para ela.


Assim, ela fica disponível para relacionamentos conflituosos e:

· Relaciona-se com homens insatisfeitos que não a respeitam, mentem, traem e não ficam na relação;

· Relaciona-se com homens agressivos, queixosos, possessivos, ciumentos, exigentes e que mostram variadas dificuldades para permanecer na relação;

· Relaciona-se com homens “perigosos” ou “misteriosos” que sempre contam histórias duvidosas;

· Relaciona-se com homens depressivos, frágeis, impotentes e necessitados de cuidados que mais parecem vir de uma criança;

· Relaciona-se com homens que possuem outros propósitos de vida;

· Relaciona-se com homens que adoecem e “perdem” a força do homem na relação;

· Relaciona-se com homens que se afastam depois da chegada dos filhos;

· Relaciona-se com homens que não gostam da sua família ou vice-versa e priorizam a relação com os próprios pais e irmãos;

· Relaciona-se com homens disponíveis, bonzinhos, carinhosos, prestativos, respeitosos, passivos, mas que, ao mesmo tempo, falta algo neles como, por exemplo, a força de ser um homem de verdade;

· Não consegue atrair um homem e ficam sozinhas, etc.


Para a “filhinha do papai” o problema está sempre no homem e, como vítima, ela sente dificuldade em responsabilizar-se pela parte dela.


Coincidência ou não, mas naquele cartório, toda a minha história mal sucedida no amor transbordou. E, então, fiquei de frente as histórias também mal sucedidas no amor da minha mãe e das mulheres da família e decidi reconciliar-me com todas elas, assumindo um novo lugar na vida como a “filhinha da mamãe”.


Decidir “ser a filhinha da mamãe” para mim foi mais que decidir ter um marido.


Foi preciso que eu fizesse renuncias internas importantes e me curvasse à história da minha mãe e das mulheres da família:

· Concordando com as decisões delas de se manterem casadas com os homens que julgavam, por elas;

· Concordando com as amantes deles, por elas;

· Concordando com as variadas agressões emocionais, físicas e psicológicas deles contra elas, por elas;

· Concordando com os vícios deles, por elas;