Do mergulho na escuridão ao emergir da luz.

Reflexões sobre Frozen a partir da teoria de Carl G. Jung.

Por Isabella Sprovieri.


“O autoconhecimento de cada indivíduo, a volta do ser humano às suas origens, ao seu próprio ser e à sua verdade individual e social, eis o começo da cura da cegueira que domina o mundo de hoje. O interesse pelo problema da alma humana é um sintoma dessa volta instintiva a si mesmo. Que este meu trabalho esteja a serviço desse interesse.” (C. G. Jung - Küsnacht—Zürich, outubro de 1918)


“Na realidade, a natureza humana é portadora de um combate cruel e infindável entre o princípio do eu e o princípio do instinto: o eu, todo barreiras; o instinto, sem limites; ambos os princípios com igual poder.”


“A alma está em busca da expressão de sua totalidade.”


(JUNG, Carl Gustav. Psicologia do Inconsciente, Obras Completas, Petrópolis, Vozes)


“Quem progredir no caminho da realização do Self (si-mesmo) inconsciente trará inevitavelmente à consciência conteúdos do inconsciente pessoal, ampliando o âmbito de sua personalidade.”


“Nossa psique consciente e pessoal repousa sobre a ampla base de uma disposição psíquica herdada e universal, cuja natureza é inconsciente.”


“Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por ‘individualidade’ entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio Self (si-mesmo).”


(JUNG, Carl Gustav. O Eu e o inconsciente; tradução de Dora Ferreira da Silva.

21. ed. - Petrópolis, Vozes, 2008.)


As reflexões sobre os filmes Frozen I, Uma Aventura Congelante e Frozen II, O Reino do Gelo a seguir serão realizadas a partir das letras das principais canções dos filmes: Let it Go (Frozen I), Into the Unknow e Show Yourself (Frozen II) sob a ótica da Psicologia Junguiana. Importante ressaltar que essa é uma dentre as inúmeras leituras que podem ser realizadas. Mais do que isso. É um convite a você leitor para refletir, questionar, aprofundar, viajar e até formular a sua própria reflexão.


DEIXE ESTAR OU LIVRE ESTOU


“A neve branca brilha na montanha esta noite Nenhuma pegada pode ser vista Um reino de isolamento E parece que eu sou a rainha”


Podemos associar a imagem descrita na primeira estrofe à depressão. Conforme apontado por René Schubert em texto sobre Depressão/Melancolia “As pessoas deprimidas colocam significados distorcidos em três domínios aos eventos da vida. O interno versus externo, onde o indivíduo deprimido assume culpa excessiva pelos eventos negativos. Global versus específico, onde concluem que as ocorrências negativas são de implicações de longo alcance, globais ou totalmente abrangentes. Fixo versus mutável, na qual situações negativas ou problemáticas são vistas como imutáveis sem melhoria no futuro”.


Vemos o “interno versus externo” quando Elsa se culpa pelo acidente que ocorre em sua infância, envolvendo sua irmã Anna e a partir daí, além de ser afastada da irmã, passa a reprimir parte de sua essência. O “global versus específico” pode ser conferido quando Elsa vai embora de seu reino Arendelle e se isola em seu castelo de gelo, convicta de que somente se afastando de tudo e todos, ela conseguiria não fazer mal a ninguém. E finalmente, o “fixo versus mutável” quando, por exemplo, o príncipe Hans pede que Elsa acabe com o inverno e ela responde que não consegue, pois naquele momento ela só enxerga desastre, fracasso, incapacidade, não considerando nenhuma possibilidade de mudança.


A depressão não é solar, não é calor nem dia. Ela é noite, escuridão, desconhecido, frio, solidão. Entretanto, a depressão também pode se apresentar como oportunidade de autoconhecimento, resgate e transformação. A palavra depressão tem sua origem no latim depressare, do verbo deprimere, “prensar, esmagar”, formado por de-, “para baixo”, mais premere, “apertar, comprimir”. Sendo assim, podemos entender a depressão com um “afundamento” em si mesmo. E é a partir deste mergulho que nossa protagonista Elsa inicia sua transformação em Frozen I, Uma Aventura Congelante, com o ápice em Frozen II, O Reino do Gelo.


“O vento está uivando Como essa tempestade que rodopia dentro de mim Não consegui contê-la Os céus sabem que eu tentei”


Depressão e ansiedade são dois estados que costumam se alternar. Assim como a tempestade que muitas vezes dá sinais de que vai chegar, a crise de ansiedade também dá. A questão é que muitas vezes só conseguimos enxergar esses sinais, depois que já fomos “devastados” por ela. E, embora até tentemos contê-la – nos acalmar, mudar o pensamento, respirar, meditar, orar – nem sempre conseguimos. Na visão junguiana, essa tempestade também poderia simbolizar o conceito de ‘complexos’, temas emocionais reprimidos cuja força nos toma, sendo capazes de provocar distúrbios psicológicos permanentes ou mesmo, em alguns casos, sintomas de neurose.


“Não os deixe entrar, não os deixe ver Seja a boa menina que você sempre precisou ser Esconda, não sinta Não deixe que eles saibam Bem, agora eles sabem!”


Na terceira estrofe, é possível encontrar uma das causas, gatilho, a crença limitante associada à ansiedade e depressão. Qual o preço que se paga em ser “a boa menina que você sempre precisou ser”? E nessa frase o gênero independe. Quanto custa tentar ser “bom” o tempo todo? Lembrando que esse é um conceito bastante relativo, pois talvez o que é bom pra mim, não seja para outra pessoa e vice-versa. “Esconda, não sinta Não deixe que eles saibam” até quando isso é possível? Esconder dos outros e esconder de nós. “Bem, agora eles sabem!” Essa sem dúvida é uma frase libertadora. É o momento em que falamos, desabafamos, aceitamos, partilhamos, pedimos ajuda.


“Deixe estar, deixe estar Não posso suportar mais Deixe estar, deixe estar Dou as costas e bato a porta Eu não me importo Com o que eles vão dizer Deixe a tempestade rugir O frio nunca me incomodou mesmo”


Na quarta estrofe, encontramos um dos momentos mais significativos. Interessante que outra variação para o “deixe estar” na versão dublada do filme é “livre estou”. Ambos fazem sentido. Em “Dou as costas e bato a porta | Eu não me importo | Com o que eles vão dizer”, vemos o quanto estar em paz conosco, com nossas escolhas, com nosso propósito de vida é mais importante do que simplesmente nos preocuparmos com a opinião dos outros. E, finalmente, deixar a tempestade rugir representa aceitar o inevitável, o bom e o mau, o fácil e o difícil. É aceitar o fluxo da vida com sua tensão entre os opostos, certamente um trabalho inesgotável.


“É engraçado como alguma distância Faz tudo parecer pequeno E os medos que uma vez me controlaram Não podem me pegar de jeito nenhum”


Na quinta estrofe, podemos identificar o processo de autoconhecimento que nos ajuda a olhar a vida com “alguma distância” e enxergar novas perspectivas. Talvez em algum momento, fortalecidos, até tenhamos a sensação de que “os medos que uma vez me controlaram Não podem me pegar de jeito nenhum”. Isso é verdade? Sim e não. Veremos isso mais claramente em Frozen II. É possível que alguns medos sejam controlados, ou melhor, reconhecidos, integrados, ressignificados. Só que o medo em si faz parte do nosso instinto de preservação, portanto sempre vai existir, mas temos a possibilidade de aprender a utilizá-lo a nosso favor.


“É o tempo de ver o que eu posso fazer Testar os limites