Entre fadas e malvadas: você, os outros e as atitudes.

Por Carmen Hornick.


Autoconhecimento e relacionamento caminham de mãos dadas. Afinal, trata-se de mim, de você e de nossas atitudes, da convergência entre o que se fala e como se comporta. Assunto comum das conversas familiares, de trabalho, de roda de amigos e de redes sociais. Nas relações humanas, há quase sempre alguém indisposto com outro alguém por alguma fala ou por alguma atitude.



Em primeiro lugar, precisamos considerar que somos seres humanos e que por essa razão, somos falhos, mas por essa mesma razão podemos melhorar a cada dia. É claro que vamos encontrar aqueles que não têm essa percepção, que já se consideram como bons o suficiente, você provavelmente conhece alguém assim, não é mesmo?


Mas, feita essa observação indispensável, vamos lá! O que pretendo conversar com você guarda uma relação com as fábulas, aquelas que por meio de uma alegoria, no final, nos trazem uma lição a ser aprendida.


Observei que nas voltas da vida, às vezes, encontramos malvadas disfarçadas de fadas. Imagino que você saiba do que eu estou falando. Vamos colocar aqui que o termo malvada se refere unicamente às personagens delineadas nas fábulas como pessoas traiçoeiras e capazes de realizar intrigas em benefício próprio. Já, as fadas, nesse mesmo contexto, são descritas como figuras etéreas, leves e bondosas.


Com o passar do tempo, concluí que ambas coabitam os nossos seres, mas que, em algum momento, dependendo da situação e de todo um cenário, uma se sobrepõe à outra. Concluí também que as atitudes repetidas podem esboçar uma tendência e, assim, o ser humano aproximar-se mais da fada ou da malvada.


Com essa conclusão, e considerando que o comportamento humano é algo fascinante para mim, passei a observar mais e a questionar os envolvidos em conflitos. Minha primeira preocupação foi a de entender, quando uma situação de conflito recai sobre determinada pessoa, ou seja, um determinado indivíduo de um grupo é visto como desonesto, falso, mentiroso.


Entendi que do ponto vista apresentados na obra Os Jogos da Vida de Eric Berne, nossas interações, sejam elas quais forem, trazem consigo situações inconscientes para a arena. Nossas posições na transação, quando no triângulo dramático proposto pelo cientista, se movimentam entre os papeis de Vítima, de Perseguidor e de Salvador, alternando-se no fluxo da conversação. Então, uma luz no final do túnel começou acenar para mim. Era uma luz luxuriante, aconchegante e amorosa. À vista disso, com muito afeto e carinho, dei-me conta que as malvadas precisam se comportar assim, afinal são como as raízes de uma árvore que precisam sugar a terra para sobreviver. Bem como, entendi que as fadas são como as frutas dessa mesma árvore, no entanto, oferecem sua doçura e abundância. Ambas são perfeitas como são, cada uma em seu padrão. Que alívio reconfortante!


Ainda nessa reflexão, por força de algo maior, deparei-me com um conteúdo no site www.iheartintelligence.com que dialogou comigo como somente um iluminado faria, e SIM! O texto, como em um passe de mágica, remeteu-me às minhas aulas de psicologia Freudiana: “Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo.”


Por favor, acompanhe-me nesta percepção. O título do texto, em si, já era um conselho pertinente “Preste atenção em como as pessoas tratam você. Isso é um reflexo de quem elas realmente são”. Resumidamente ele, o autor Thomas Nelson, falou para mim que algumas pessoas mantêm segredos obscuros sobre si, como uma forma de defesa à exposição ou ao julgamento. Eu, há algum tempo, vinha observando essa dinâmica nas relações sociais.


Na minha opinião, o uso de máscaras sociais é preocupante e nos afasta, cada dia mais, da autenticidade e, portanto, do tão sonhado bem-estar gerador de momentos de felicidade.

Nessa articulação, o autor diz que quando alguém, deliberadamente, lança acusações sobre o outro, ele está simplesmente expondo o seu self agressivo, sua malvada dominante. Note que a ação se enreda como uma metalinguagem, pois ao colocar o outro no centro do acontecimento, a ação do acusador é automaticamente minimizada, haja vista que ele assume o papel da vítima em busca de seu salvador, no caso, a terceira pessoa do triângulo a quem são feitas as revelações/acusações.


Ao mesmo tempo, significa que o estabelecimento do jogo lhe proporciona o conforto emocional de haver encontrado um seu igual, ou alguém que brinque e participe de seus dramas pessoais.


Pelo mesmo caminho, transita a acusação sobre mentira e falsidade. Afinal, os estudos filosóficos e religiosos já se debruçaram sobre a busca da verdade, mas nós, enquanto seres humanos, quando mais honestos e “do bem” – entenda-se aqui aquele que se preocupa não só consigo mesmo, mas com o outro -, buscamos manter a coerência entre os nossos valores, o que pensamos, dizemos e fazemos.


Mas sabemos que a verdade, termo abstrato e fluido, sobre fato ou pessoas, nem mesmo a ciência e seus métodos é capaz de revelar. Há, sim, uma aproximação, mas é apenas uma aproximação. Ou seja, só você mesmo é capaz de saber quando está mentindo ou não, quando está sendo falso ou não.


Neste sentido, concluo, juntamente com Thomas, que há uma grande tendência de que o algoz, aquele que acusa o outro de falso ou de mentiroso, ser o próprio mentiroso! A ideia básica percorre o mesmo caminho, qual seja, de acusar o outro para que o seu próprio comportamento não seja observado, para colocar-se como vítima e para ser salvo pelo seu herói: game over!


Assim, deixo a minha dica para você lidar com situações semelhantes e tão comuns na vida, seja na família ou no trabalho. Preste atenção nos provocadores de conflitos e perceba o script que vivem quando provocam desarmonia.


Caso você seja o alvo, não se sinta infeliz e nem confunda os papéis. Entretanto, se você for qualquer um dos outros envolvidos no conflito, veja a situação e analise quem está em qual papel, reenquadre o triângulo e não aceite o que não é seu. Esse é um excelente método para resolver conflitos internos/pessoais, familiares, institucionais, enfim, de relacionamentos.


Lembre-se que todos temos qualidades e defeitos, pois somos, ao mesmo tempo malvadas e fadas, mas você, assim como eu, precisa lutar para além de equilibrar essa balança, fazer com que a luz seja mais aparente que a sombra.


Olhe para as malvadas que encontrar com empatia e compaixão, pois, elas estão, por alguma razão, revelando para você quem realmente são, na realidade, é o que têm para oferecer. Então, aproxime-se, veja, escute, toque, observe que, se lhe enredam no triângulo, de alguma forma, elas percebem você como uma pessoa especial, pois foi convidada para participar do jogo.


Sei que é difícil lidar com uma situação conflituosa com afeição, mas aproveite a oportunidade para se conhecer melhor e para observar as suas atitudes. Mas, por favor: não sofra!

Carmen Hornick

Cuiabá, 7 de abril de 2020.

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