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FILME ROCKETMAN, CONSTELAÇÕES ESTRUTURAIS E “NOVA VERSÃO”

Por Adriana Batista.


Minha atuação profissional tem muito das Constelações Estruturais, as quais carecem de material escrito em língua portuguesa. Portanto, pretendo cada vez mais explicitar as referências a elas nos meus textos.



Rocketman, o musical em cartaz que fala de maneira poética da vida de Elton John, mostra também a postura sistêmica que me emaranha e aquela que me libera para ser quem sou. Somente quando estou no meu lugar posso exercer plenamente minhas competências e ser feliz. Para quem não é do ramo, esclareço: postura sistêmica é a maneira como me relaciono; emaranhamento quer dizer desarmonia; e estar no meu lugar significa não pretender ser mais ou ser menos, em outras palavras, é APENAS SER.


Elton Hercules John nasceu Reginald Kenneth Dwight ou Reggie Dwight, como era chamado quando criança. Filho único e prodígio - cedo descobriu sua genialidade ao piano - sentia um vazio por ser rejeitado pelos próprios pais. Esse nó da infância levou o adulto a uma clínica para dependentes químicos. Entre uma fase e outra, houve a artista de estrelado meteórico, o rocketman (homem-foguete) do título. Nessa jornada, algumas escolhas foram determinantes para o quase-final trágico - que na verdade revela-se um recomeço. 2 Cenas foram definitivas para chegar ao ponto de virada na Cena 3. Falarei sobre as 3 na sequência.


1ª Chave: Infância. “- Quando você vai me abraçar?”


O pequeno Reggie vive com os pais e a avó, única familiar que o incentiva de maneira afetuosa. A rejeição mais sentida é em relação ao pai, a quem pede: “- Quando você vai me abraçar?” Embora a expectativa não seja atendida nem quando o genitor abandona o lar, o filme evita o lugar-comum de rotulá-lo vilão. A poética cena em que cada familiar canta solitariamente a música “I Want Love” (Eu Quero Amor) mostra a complexidade humana que desbanca o maniqueísmo, pois todos têm luz e sombra, amor e dor. Cada qual precisa dar e receber amor, mas está enredado nas próprias questões.


Cena 1 - Performance de I Want Love (Elton John/Bernie Taupin).


Reggie (em relação ao pai): “Eu quero amor, mas é impossível. Um homem como ele, tão irresponsável, sentindo-se morto.”

Pai: “Outros homens sentem-se liberados. Não posso amar com tantas feridas. Não sinto nada, só o frio.”

Mãe: “Não sinto nada, só as antigas cicatrizes endurecendo meu coração. Eu quero amor nos meus termos, depois de tudo que aprendi.”

Avó: “Eu tenho carregado tanta bagagem. Deus, eu já vi tantas idas e vindas! Mas eu quero amor.”

Todos: “Que não me sufoque. Que não me prenda. Eu quero um amor que faça sentido. É esse amor que quero.”


2ª Chave: Início da carreira. “- Matar quem você é.”


No primeiro emprego como pianista numa banda de Soul, o tímido Reggie pergunta ao vocalista como tornar-se um “soulman”.


Cena 2 - Diálogo com o cantor de Soul.

Cantor: “Componha umas canções. Sou um negro magrelo de Detroit, cujo nome verdadeiro é Rodney Jones. Toquei em inferninhos de beira de estrada por dez anos até sacar o que fazer.” Reggie: “Mudar de nome?” Cantor: “Não é só um nome. Tem que matar quem você é para se tornar quem você quer ser.”

Na sequência, Reggie começa a vestir-se de forma mais ousada, muda o nome para Elton John, inicia a carreira solo e também a amizade com o letrista Bernie. Porém, rompe definitivamente com a pessoa que ele é ao adentrar no mundo de luxúria de John Reid, seu novo produtor musical e parceiro íntimo. “Mas eu desisti daquele tempo e do meu jeito caipira”, diz a música “Honky Cat” que embala a nova versão de Elton.

A “Nova Versão” é uma ferramenta fantástica das Constelações Estruturais: a cada ampliação de consciência tenho acesso a uma nova versão de mim mesmo. No entanto, não se trata de escolher entre ser a pessoa que fui ou uma nova pessoa, mas integrar Ambas as Coisas (outro conceito das estruturais). Quando a persona Elton John domina, nosso herói desconecta-se da força de ser quem ele é, Reginald Dwight.


3ª Chave: Assumir reponsabilidade e abraçar a própria criança. “- Você só tem que lembrar quem você é. E ficar bem com isso.”


O filme inicia, perpassa e tem seu clímax no círculo terapêutico, numa inspiradora cena que ensina a apropriar-se da Nova Versão de maneira sábia. Nela, o protagonista revisita cada um de seus relacionamentos, deixa com a outra parte a responsabilidade dela e assume a sua própria.


Cena 3 - Clínica de Reabilitação, círculo de terapia:

Protagonista: “Sinto vergonha. Passei muito tempo magoado com coisas que não são importantes. Eu devia ter sido mais comum.”

Entra a Avó, sorridente: “Você não tinha nada de comum!”

A Mãe: “Olhe pra você! Aqui, falando dos seus sentimentos! Que desperdício de tempo!

Protagonista: “Mãe, sei que nunca foi fácil. Espero que possa me perdoar, porque saquei o que precisamos fazer: perdoar um ao outro.”

John Reid (ex-parceiro e produtor musical): “O seu problema é ser egoísta.”

Protagonista: “Não. O meu problema foi acreditar que você me amava. E você era incapaz. Fiz tudo para manter algo que nunca tive.”

Padrasto: “Achava que você era um *ambivertido.” (*ora introvertido, ora extrovertido)

Avó: “Ele é tímido. Sempre foi tímido.”

Mãe: “É tudo culpa do pai.”

Pai: “Não me culpe. Ele seria estranho de qualquer jeito.

Protagonista: “Acho que aceito bem o “estranho”.

Mãe (olhando para o pai): “Deus, ele não!”

Protagonista: “Parem vocês dois! Não permitirei mais que falem comigo assim”

Bernie: “Estava na hora de você dizer isso.”

Protagonista: “Bernie, nunca falei quanto preciso de você.”

Bernie: “Não precisa. Eu amo você, cara. Sempre amei e sempre amarei. Você compõe canções que milhares de pessoas adoram. É o que importa. Você só tem que lembrar quem você é. E ficar bem com isso.”

John Reid: “Ele não sabe quem ele é.”

Protagonista: “Sei sim. Sou Elton Hercules John.”

Reggie (protagonista criança): “Pensei que você fosse o Reggie Dwight.”

Protagonista: “Não sou o Reggie Dwight há anos.” Vai ao Reggie e ajoelha-se frente a ele.

Reggie: “Quando você vai me abraçar?” Então, ele abraça a própria criança, o Reggie Dwight que vive nele.

O pequeno Reggie sobreviveu à rejeição, portanto, ele tem os recursos que o adulto precisa para superar desafios semelhantes. Em contrapartida, o adulto é autossuficiente, não precisa mais de aprovação externa, e pode preencher esse vazio da criança interior.  


A história do Rocketman, em algum grau, é a história de todos nós. Existe um imaginário de que a Autoestima virá com os clássicos sucesso, dinheiro, poder e reconhecimento. No entanto, ter Autoestima significa estar bem com as origens (leia-se pai e mãe) e com quem se é. Usando uma expressão do início do texto, é APENAS SER. Como disse a personagem Bernie: “Você só tem que lembrar quem você é. E ficar bem com isso.”

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