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MULHERES: ESTAMOS PRONTAS PARA HOMENS MADUROS?

Por Daniela Migliari.


Desde que o mundo é mundo, as relações existem para que, nos emaranhados em que elas se apresentam, a gente possa aprender, seguir adiante e viver, seja como for...


Conforme amadureci, tive a chance de me dar conta de quão pequenina sou diante da existência que me antecede. Da alegria e alívio de encontrar meu lugar, aos poucos, fui deixando de me arriscar no mérito de dizer o que é certo ou errado em matéria de convivência.


Muito menos de me entregar à ingênua ilusão de acreditar em receitas prontas sobre como um casal pode dar certo.

No encontro das singularidades humanas nas relações, há experiências e suas consequências. Somos todos simplesmente humanos: convivendo, nos experimentando e amadurecendo juntos.


Graças ao esforço de nossos antepassados que, desde as cavernas, enfrentaram intempéries mil para sobreviver, estamos avançando e conquistando possibilidades (que mais se assemelham a luxos) – de desenvolver novas formas de sobreviver e nos relacionar.


O PRÍNCIPE ENCANTADO


Na geração em que nasci, desde pequenas, é comum sonharmos com o príncipe encantado. Então, muitas de nós vivemos fases em que misturamos a projeção de sermos salvas pelo masculino, sem que nos déssemos conta das pitadas de “seja-meu-papai” que vinham a reboque desse desejo: “Sim, príncipe, quero ser salva!”.


Então, crescemos, veio a modernidade, tivemos a conquista de exercer nossa independência, sobrevivemos bem num mundo já não tão feroz como antes...


A questão é que, nesse novo momento, ao mesmo tempo em que queremos (ou exigimos) a pitada de “papai”, por outro lado, isso já não é tão bem vindo assim...


Enquanto isso, na porção homem, ali, no meio desse pacote, acontece algo novo: ele fica um pouco perdido, se perguntando: “Qual é o meu papel então? Tenho mesmo que salvá-la? É sério: salvo ou não salvo? Pra que mesmo estou aqui?”.


Nesse contexto, algumas de nós abrimos mão do homem e ficamos sozinhas: “Dá trabalho demais... e eu já consigo sobreviver sozinha, pra quê mexer com isso?”.


Outras de nós permanecemos com ele, e seguimos um pouco confusas sobre esse mix de papeis. Ora tratando-o como homem, ora exigindo-o como um “pai”, ora dominando-o como “filho”. Ou, tudo junto ao mesmo tempo...


Algo de errado com isso? Não! É simplesmente a linda vida sendo a professora que ela é.


É COMIGO MESMO


Então, caminhamos um tantinho mais...


Tomamos consciência de que salvar a gente talvez seja uma conta pesada demais pra repassar a alguém...


Aos poucos, nos autorresponsabilizamos... Ainda assim, ao mesmo tempo em que isso acontece, um estranho ressentimento, uma certa sensação de abandono pelo “papai” segue à espreita.


Até que vem uma nova rodada na espiral e chega a pergunta, agora um pouco mais veemente: “Será que REALMENTE preciso ser salva por alguém, que não eu mesma?”.


Justo agora: que este planeta é um lugar – relativamente – um tanto mais seguro para uma mulher viver sozinha, sem bichos selvagens à espreita, sem tantos combates sanguinolentos, com democracias, sistema judiciário e polícia estabelecida em muitos países...


Justo agora: que nós mulheres temos direito a votar, a trabalhar, a legislar, a julgar, a falar, a subsistir economicamente, a sermos a mulher que quisermos ser, surgem algumas perguntas:


O que eu posso esperar de um homem, além de um salvador?

Além de um mantenedor?

Além de um provedor?

Além de um protetor?


Posso simplesmente somar com ele?

Posso simplesmente compartilhar a vida com ele?

Posso simplesmente ter prazer, amar e conviver com ele?


Nos perdemos tanto entre o que era e o que será, que leva algum tempo para nos localizarmos no que já é.


A ALEGRIA DE TODOS ESTARMOS EM CONSTRUÇÃO


Idealizamos tanto esse homem digno, que deixamos de ver, ouvir e reconhecer um deles – “bem humano, imperfeito e em construção” – quando este se apresenta bem diante de nossos narizes. Esteja ele ao nosso lado há décadas, esteja ele na mesa de um bar...


Afinal, também somos “bem humanas, imperfeitas e em construção”! Não é mesmo? Ou você, mulher, tem a visão secreta de se sentir melhor do que eles?


Eu já tive essa certeza, por muito tempo... Até que pude ver a realidade e admitir: eu nem existiria nesta Terra se não fosse pelo encontro de minha mãe com um homem: o meu pai!


E admiti, com imensa alegria: sem esses dois inteiros, tão distintos e complementares, a mágica da vida não acontece!

Fato-óbvio-ululante admitido, compreendido e bem assimilado...


Então, vem uma nova volta na espiral...


Desconcertadas, somos pegas de surpresa pelas insistentes, sutis e insidiosas exigências da “filha abandonada” que, volta e meia, surge em nosso contrapé, ao menor descuido de autovigilância.


Aturdidas, muitas vezes só brigamos, e nem nos damos conta desse fato. Admiti-lo, então, está fora de questão!


Constrangidas, escondemos essa fragilidade, desistimos de conviver, nos isolamos na solidão, ou na justificada mágoa (má-água-parada) de um dia termos sido feridas e desprezadas, apegadas a um passado distante ou nem tão distante assim...


QUEM VAI OLHAR PRA FRENTE?


Sabe em que dia teremos um homem maduro ao nosso lado?

No dia em que escolhermos agir como mulheres maduras.

No dia que largarmos mão de exigi-los como um “pai”.

No dia em que pararmos de tratá-los como um “filho”.


No dia em que admitirmos a possibilidade de ele querer, simplesmente, não estar conosco, seja porque se interessou ou não por outro alguém.

No dia em que ele puder assumir essa vontade e sair da relação, como um adulto maduro.

Sem torná-lo “o safadão”, sem sentirmo-nos abandonadas pelo “papai”.

Afinal, uma relação de casal fala de troca, de um amor que é, sim, condicional.

Incondicional, só amor de papai mesmo.


No dia em que assumirmos a possibilidade de querer, simplesmente, não estar mais com eles, seja porque nos interessamos ou não por outro alguém.

No dia em que assumirmos essa vontade e sairmos da relação, como adultas maduras.

Sem nos tornarmos "a louca" ou “a puta”, sem sentirmo-nos a “mamãe” que abandonou.

Afinal, uma relação de casal fala de troca, de um amor que é, sim, condicional.

Incondicional, só amor de mamãe mesmo.


Assim, maduros e encarregados de nós mesmos, ambos arcamos com as consequências de permanecermos ou sairmos da relação, como adultos.


A ESCOLHA DE PERMANECER JUNTOS


E atenção:

Autorresponsabilidade não implica em indiferença.

Liberdade não significa, simplesmente, ficarmos sozinhos.

Muitas vezes, usamos a liberdade para disfarçar o medo de não colocar os dois pés pra dentro de uma relação.

Liberdade pode ser, também, a escolha de pertencer a uma relação.


Seja pra sair inteiros.

Seja pra entrar e permanecer inteiros.

Porque queremos, porque é bom, porque assim desejamos.


É assim que dois adultos podem se relacionar.

Desbravar a alegria de ser livres para dar e receber prazer...

E de poder, vez por outra, frustrar o companheiro e também ser frustrado.


De poder, sim, apoiar um ao outro.

Cuidar um do outro.

Como companheiros.

E não no cumprimento de um amor que exige, um ao outro, como a criança que exige seus pais.


Sabe em que dia teremos voz diante de um homem?

No dia em que dermos ouvidos a ele.


Sabe quando seremos vistas por um homem?

No dia em que vermos ele e sua dor.


Sim, eles também têm dor...

Ou você realmente acredita que ele não sofrem?


A VIOLÊNCIA NOSSA DE CADA DIA


Nós, mulheres, também temos formas muito subliminares de ferir, de minimizar, de manipular, de violentar um coração masculino: “Você é igual a todos, é igual ao seu pai, não presta!”.


Nós também temos muita agressividade, seja física, seja emocional, seja na exigência de um papel que, talvez, possa, queira ou precise se renovar: "Você é obrigado a cuidar de mim, a cumprir comigo!"


Sim, já tive relacionamentos com homens agressivos.

E pra nós, mulheres, essa é a parte impotente:

Somos fisicamente mais frágeis!

Na maioria dos casos, somos menores em peso e estatura, temos menos hormônios de agressividade, enfim, usamos menos a força física.


Após o primeiro machucado que vivi, tive a possibilidade de conseguir ir embora.

Eu sinto muitíssimo pelas diversas mulheres que ficaram para viver a segunda, terceira ou enésima violência.

A elas não julgo.

A todas elas abraço e me solidarizo.


E relembro a cada uma delas:

Hoje, graças ao esforço de nossos antepassados (e contemporâneos), mulheres e homens que buscam uma nova construção em sociedade!!


Sim, temos defesa!

Sim, temos voz!

Sim, temos denúncia!

Sim, temos polícia!


Fomos resilientes e seguimos.

Vencemos?

Em muitos aspectos, sim.

Independentes.

Financeiramente potentes.

E, também, um pouco perdidas da compreensão do feminino em nós...


Na busca de compensar um passado...

Nos isolamos...

Nos armamos...

Nos brutalizamos...

Nos infantilizamos...


Brigamos muito porque nos sentimos atacadas e frágeis.

Frágeis perante nossa própria independência financeira.

Frágeis perante nossas próprias escolhas.

Frágeis perante nossa própria firmeza de dizer sim-sim, não-não.


E AGORA QUE JÁ CONSEGUIMOS TUDO ISSO?


Podemos abrir mão do secreto e real desejo de ainda querermos ser salvas, bancadas, recompensadas e cuidadas pelo “papai” para sempre?


Podemos abrir mão de puni-los pela falta ou pela dor que nós, nossas mães e antepassadas vivemos?


Podemos abrir mão de ficarmos tão fortes e potentes – dominando-os e esmagando seu masculino – tamanho o nosso justificado terror de sermos dominadas e machucadas de novo?


Podemos?


Somente podemos isso tudo quando nos sentimos confiantes de novo: em nossa voz, em nossas defesas, em nossos limites. No ritmo de cada uma de nós!


Queremos?


Ao mesmo tempo, eu escolho ver que há homens disponíveis no mundo!

Disponíveis a amadurecer junto conosco.

A ensinar e aprender junto conosco.

Nós em companhia deles.

E eles em companhia de nós.

Desembaraçando os nós do passado que nos compõem.

Nos experimentando e aprendendo juntos, na lida da relação...


Será que “todos os homens são assim mesmo”?

Será????

Sim, há homens que sabem ouvir um “não-não” e um “sim-sim”.


E não sei quanto a você...

Eu estou cansada de andar armada o tempo todo...


Ocupadas com armas, minhas mãos sequer têm espaço para entrelaçarem-se a outras mãos e dar um simples passeio pelo parque...


Sempre desconfiada e com um pé atrás...

Sempre tão armada que não me dei conta que, talvez, essa guerra já tenha terminado...


Posso me embevecer com a força do masculino sem me sentir ameaçada?

Posso ouvir um grito, sem me deixar dominar e calar?

Posso dar um grito, sem ser chamada de louca ou levar um tapa na cara em seguida?


No caso de um “não”, posso simplesmente sair sem perder a fé ou me fechar para todo o resto da humanidade inteira?


Posso seguir disponível de novo, de novo e de novo, admitindo a possibilidade de poder ser frustrada?


Posso ver minha expectativa não sendo correspondida exatamente como eu quero?


Perguntas de um milhão de dólares...

Que serão respondidas na lida do dia a dia...

No exercício do sim-sim, não-não...


SIM, ELES EXISTEM! E AMBOS GRITAMOS E CHORAMOS


Sim, existem homens abertos pelo mundo.


Sim, existem homens que sabem ouvir um ocasional grito de mulher, porque simplesmente elas estão sob pressão, sem chamá-las de loucas ou dar um tapa na cara em seguida.


Sim, existem homens que podem gritar, porque simplesmente estão sob pressão, e podem contar com a firmeza de uma mulher adulta para ouvir e compreender sua necessidade, sem que ela se prenda ao justificado recalque de estar sendo dominada.


Sim, existem homens abertos a compartilhar, a conversar, a ouvir.

A expor suas dores, suas raivas, e a ouvir as nossas.

Não como um "pai" déspota e dominador.

E sim como um homem maduro.


Sim, existem homens que podem chorar sem se sentirem vistos como fracos.

Que podem auxiliar nos afazeres domésticos sem se sentirem despotencializados.

Não como um "filho" frágil e sem potência.

E sim como um homem maduro.


Existem homens em construção, tal qual a mulher em mim...

Humanos, imperfeitos e com muita vontade de curtir uma relação e aprender na lida do dia a dia...


Então, mulheres:


Já podemos reabrir nossos corações para eles?

Eu estou com saudades desse contato, e você?

Eu quero ver e ouvir esses homens e suas vozes.

Também quero dizer a eles uma porção de coisas:


QUERIDO HOMEM,


Eu sou um ser inteiro.

Eu me amo.

Eu mesma me salvo.

Eu mesma subsisto, estudo, trabalho e tomo conta de mim.

Eu vivo bem sozinha, sim...


Agora, tem um fato curioso...

Eu também sinto sua falta...

Falta de algo que ainda não vivi...


Com você, eu me sinto enriquecida.

Estimulada.

Tocada.

Desbravando toda a potência da minha feminilidade.

Até o ponto de, quando e se assim o desejarmos, sermos pais de nossos filhos.

Quão belo é ver a Vida seguindo adiante por meio do nosso encontro!

Do nosso Amor...


Sobre gerar e parir, é importante você saber:


Uma nova vida é algo que criamos juntos, eu e você.

A responsabilidade é nossa, compartilhada.

Por tudo que suceder daí em diante.


Lembro de um dia ter bradado a você, num pranto sentido:

“Você sabe o preço do risco de vida que a gente precisa estar disposta a pagar para dar a luz a alguém?”.


Lembro, também, de ter ouvido você dizer, não menos sentido:

“Você sabe o preço da absoluta impotência e do medo que sentimos de perder a sua vida e a de nossos filhos neste processo?”.


Chocada e atônita, reconheci:

“Não! Eu não sabia, eu não ouvia, eu não olhava... E eu te agradeço por admitir e por me amar!”


Sabe homem...

Quero você, sendo exatamente quem é.

Expressando sua verdade exata.

Sua verdade causa algo em mim.


E eu me responsabilizo pela minha reação a isso:

Quanto ao que recebo, posso dizer um sim-sim.

Quanto ao que recebo, posso dizer um não-não.


Simples assim...


Agora, eu quero te perguntar algo:


Você também consegue ouvir e lidar com meu sim-sim e meu não-não?

Você também consegue abrir mão de me exigir como quem exige a uma “mãe”?

Você também consegue não querer me dominar como um “papai” dominador que controla sua “filha”?

Você também pode se alegrar com minha independência e me ver livre, escolhendo estar ao seu lado porque simplesmente quero?


QUANTA SAUDADE!!!


Sabe homem, algo curioso vem me rondando...

Depois de tantas idas e vindas, eu me dei conta...

Do vazio, da saudade que sinto de você...

De algo novo, que olha pra frente!

Nada explicava essa saudade...


Foi quando a espiral deu outra volta...

E compreendi:

Quanto ao passado, estávamos todos aprendendo juntos!


Nas longas noites da existência, no mergulho em nossa infância espiritual...

Quantos abusos, quantos excessos...

E você sabe, né?

Na dinâmica-balança da Vida...

Para equilibrar um excesso, surge outro excesso.


De compensação em compensação

De olho por olho

De dente por dente

De arma por arma


Cansei, acalmei e relaxei...

Descansei e confiei no meu não-não.

Então, senti falta e me abri novamente pro meu sim-sim.


Foi quando desisti de te cobrar pelo processo de aprendizagem das gerações passadas.

Graças a elas chegamos até aqui...

Nos experimentamos...

Como foi...

Pelo preço que custou...

Foi assim!


E com tudo o que é e acontece, vem sempre um grande aprendizado.

Para mim e para você.


O NOVO


Eu sinto falta de gratidão.

Eu agradeço.


Eu sinto falta da paz.

Eu sou paz.


Eu sinto falta do convívio.

Eu me disponibilizo pro convívio.


Eu tenho voz.

Eu falo.


Eu tenho ouvidos.

Eu escuto.


Eu tenho olhos.

Eu vejo.


Eu tenho voz.

Eu falo meu sim-sim, e meu não-não.


Eu tenho ouvidos.

Eu ouço o seu sim-sim, e seu não-não.


Sinto sua falta, homem!

E pra te receber à altura de dois adultos...

Preciso te dizer a minha verdade:

Eu preciso de você!


Digo este verbo com todo o componente de vontade e livre escolha que ele tem...

Preciso porque quero!

Quero muito sua companhia!


Como homem maduro em construção que é...

Como mulher madura em construção que sou...


Um novo casal – sempre humano.

Uma nova forma – sempre em construção.


Nem melhor, nem pior do que qualquer outra forma que já pisou na face da Terra...


Eu e você simplesmente nos abrindo ao NOVO!


(Daniela Migliari, 16 de julho de 2019

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