O despedaçar de pétalas: morte ou renascimento?

Por Renata Pinotti Alves

Um convite à reflexão a partir da análise junguiana e da Constelação Familiar do conto “O Barba Azul”.


A psicóloga junguiana, Clarissa Pinkola Estés, descreve em seu livro “Mulheres que correm com os lobos”, o conto do Barba Azul, como a iniciação da mulher selvagem.


A expressão mulher selvagem nesse contexto representa a mulher em seu estado mais puro, conectada à sua essência, à sua psique instintiva mais profunda, à sabedoria e todo potencial criativo da alma1.


Mulheres domesticadas para serem “boazinhas” foram condicionadas na infância a ignorar sua intuição, a não enxergar e não perceber o perigo. Por terem sido ensinadas a se submeter ao predador, elas crescem desconectadas de seus instintos, congeladas e paralisadas, como “virgens de olhos vidrados”, cegas à realidade.1.

Mulheres que ficam presas à essa dinâmica são ingênuas a respeito dos predadores, escolhem parceiros que são destrutivos à sua vida e tornam-se passivas a relacionamentos abusivos. Elas acreditam que podem “curar” aqueles que amam. Segundo a autora, esse script de “casamento com o predador” geralmente se molda antes dos 5 anos de idade1.


O Barba Azul é o predador interno da psiquê da mulher. Ele reside dentro dela e, até que ela desperte novamente seus instintos e potencial selvagem, ele irá destruir os dons femininos de sua psiquê1.


Homens identificados com esse arquétipo geralmente fracassaram em algum aspecto da sua vida. Eles reagem a essa imensa frustração destruindo os sonhos da mulher. Seu impulso inconsciente e instintivo é de destruir a mulher. Essa é a medicina deles.


Dependendo do grau de congelamento e paralisia da mulher, ela convida um Barba Azul para entrar em sua vida, pois ela precisa dessa medicina para descongelar. Esse movimento é inconsciente e movido pela alma, como um caminho de iniciação.


Apenas algo rápido e forte demais pode destruir as consequências de algo que foi rápido e forte demais no passado. Precisa ser intenso para conseguir destruir as velhas estruturas internas, construídas como mecanismo de sobrevivência ao trauma.


Só a intensidade consegue quebrar a redoma que a mulher estava presa, colocar seus pés de volta na terra e despertá-la do devaneio.


Esses homens também procuram, inconscientemente, por essas mulheres.


Ambos se atraem mutuamente e um está a serviço do outro.


Em toda relação abusiva há ganhos secundários dos dois lados. São dinâmicas inconscientes movidas pelos aspectos sombrios que nos constituem. A presença de Thanatos no masculino e no feminino, no animus e na anima. O difícil é que a inconsciência não isenta nenhuma das partes da responsabilidade e das consequências de seus atos e escolhas, por vezes fatais.


O Barba Azul é muito inteligente e possui um poder hipnótico com as mulheres “boazinhas”. Ele acessa os pontos mais cegos da mulher e diz exatamente o que ela sonha ouvir. Ela se seduz pelas vantagens e prazeres do ego: a promessa de casamento com o príncipe no cavalo branco, a realização dos seus sonhos e fantasias sexuais, as facilidades materiais...E até a ideia de que pode salvar o homem.


A promessa enganosa do predador é que a mulher será sua rainha, quando na verdade ele planeja aniquilar sua força e presença1.


De forma inconsciente, o predador interno da psiquê da mulher concorda com isso1.


Nos raros lapsos de lucidez a mulher enxerga que tem algo estranho, porém ela duvida de si e permanece cega, agarrada às promessas do seu companheiro e ao seu paraíso de ilusões. É como uma dependência química, em que o traficante é o Barba Azul1.


Ela permanece na relação e se nega a enxergar por medo de ter que tomar uma atitude. Ela teme perder o “status quo”, como a estrutura financeira, a casa ou até a condição de ser casada.


Quando a mulher consegue ouvir as mulheres sábias que a aconselham, ela finalmente desperta de sua cegueira. Ela usa a chave da sua consciência e consegue enxergar a realidade. Nesse momento, ela descobre que não foi a única e vê os cadáveres das mulheres anteriores que ele destruiu1.


Ao se perceber descoberto, o Barba Azul reconhece a urgência de destrui-la! “Já não é mais minha bonequinha, meu brinquedo, minha marionete. Chegou a sua vez, ele diz”! Nessa hora, ela precisa correr e ser esperta para não morrer. Ou sucumbir em promessas de que será diferente desta vez (e das próximas incontáveis vezes).


A mulher só consegue sair da relação e dessa dinâmica se desenvolve o aspecto masculino saudável em sua psiquê.


No conto, quem ajuda a mulher são as irmãs mais velhas, o feminino sábio da psiquê. Elas se tornam seus olhos. Os irmãos, o masculino saudável da psiquê, representam a benção e a força de ação. Com essa benção a mulher consegue neutralizar o poder paralisante do predador em sua psiquê e substituir seus olhos vidrados por olhos que veem; podendo contar com um guerreiro de cada lado caso ela precise convocá-los1.


O ponto nevrálgico dessa dinâmica é que se a mulher não enxerga o perigo e permanece na relação, paralisada e cega; além de perder a oportunidade de se curar, ela continua a dinâmica e traz para dentro do relacionamento outras crianças e mulheres para serem destruídas pelo Barba Azul. A frase inconsciente nesses casos, segundo as descobertas de Bert Hellinger, é “morra no meu lugar” 2,3.


No conto do Barba Azul a mãe da esposa ingênua é cúmplice, ela não recomenda nenhuma cautela à sua filha com relação ao predador. Estés afirma que a mãe também está adormecida, seja ela a mãe biológica ou a representação da mãe em sua psiquê1. Essa observação nos permite refletir que essas dinâmicas podem ser transgeracionais.


Um conto que também traz à luz essa dinâmica oculta é o da Chapeuzinho vermelho. A mãe manda a menina atravessar a floresta para levar alimentos à sua avó. Ela pede à filha que não saia do caminho, porém permite que ela passe pelo caminho perigoso4.


Os filhos fazem de tudo para salvar seus pais e, por amor, geralmente se sacrificam de forma inocente. O amor da criança pelos pais é tão grande que ela acredita que ao morrer irá salvá-los2,3. Bert Hellinger observou em seu trabalho com a Constelação Familiar que a frase inconsciente das crianças para os pais é: “antes eu do que você”; “eu no seu lugar”2.


Um outro ponto que Bert Hellinger observou é que os casos de abuso e violência infantil geralmente envolvem 3 pessoas, não apenas a vítima e o perpetrador. A solução, muitas vezes, está na terceira pessoa oculta.