OS TESOUROS DA ARROGÂNCIA.

Por Daniela Migliare.


Como a criança interior amadurece de mãos dadas com o adulto consciente, nas idas e vindas entre excessos arrogantes e a descoberta da humildade.


Sim, a arrogância entrega um imenso tesouro! Uma vez que os aspectos do ego infantilizado nos fazem suar e evoluir, certamente a arrogância é um dos treinadores (treina a dor?) mais implacáveis e eficientes que estimulam a jornada humana.


Para adentrarmos nesta análise da arrogância, é importante compreender seu conceito básico: esta atitude fala de um atribuir-se valia que está fora de lugar, de realidade e de contexto. Ou seja, saímos do nosso “quadradinho”, abrimos mão da condição de humildade (‘humus’, de ‘terra’; e ‘ilde’, de pés) e tiramos os nossos pés do chão do terreno da ‘planitude’ – aquele em que estamos lado a lado com todos os seres que habitam este planeta e, por conseguinte, em condições de vivermos relações de trocas entre iguais.


Quando alguém se eleva (ou se rebaixa), iniciam-se as tensões nas relações. E nesta gangorra comportamental, vamos todos subindo e descendo em nossos pêndulos entre extremos interiores, nos experimentando e nos autoconhecendo, naturalmente, nas sendas da vida em relação.


Bases semânticas da arrogância


Para compreender melhor esta sombra, fui buscar a semântica da palavra arrogância para ampliar ainda mais estas compreensões. Encontrei interessante ensaio de Yves Déloye, professor na Universidade de Bordeaux, na França, e um dos organizadores do Colóquio Arrogância. Foquei especialmente na análise do termo em seu artigo que abre uma série de textos publicada sob o título "Ensaios sobre a Arrogância". Foi nesta referência que encontrei a melhor análise etimológica da palavra.


Segundo este pesquisador, dois termos merecem ser examinados como possíveis origens da palavra: “o adjetivo arrogação (arroguemment) que caiu em desuso, era atribuído à ação ou à fala de uma pessoa, que assinala o extrapolamento da medida que convém às interações sociais normais. O termo assinala, ao mesmo tempo, uma forma de provocação e a sua condenação, um comportamento considerado patológico e a sua reprovação. O emprego desse adjetivo assinala, também, o fato de se atribuir de maneira inconveniente uma honra ou os benefícios exclusivos de uma ação.”


E continua: “Por outro lado, o verbo “arrogar-se” (do latim “arrogare”) tem origens diferentes, visto que, de início, ele é sinônimo de “adotar” e significa o ato pelo qual uma criança abandonada muda de estatuto jurídico. Outro uso é, contudo, assinalado desde meados do século XV, quando o termo tomou o sentido que ainda é o seu atualmente: o verbo “arrogar-se” descreve o fato de “tirar vantagem de” ou, ainda, a ação material e física de “apropriar-se”, de “atribuir-se alguma coisa sem ter direito”.


E, por fim, ressalta: “É interessante observar que na base de dados do Trésor de la langue française, esse verbo é sobretudo relacionado sintaticamente com as seguintes palavras aparentadas: “déspota”, “despótico”, “direito”, “usurpação” [empiètement], “enfatuação”, “preeminência” ou ainda “pretensão”.”


Fake it until you make it: recurso que ensina (e queima também)...


“Finja até conseguir ser”. Este é um recurso natural de qualquer ser humano que precisa da coragem para experimentar-se e ser algo novo em si mesmo. Nesse sentido, quando estamos começando a sair de nossas experiências e conhecimentos infantis, vamos observando o próximo, nos espelhando naqueles que nos inspiram a ser adultos, emancipados e melhores.


Como ocorre em diversos outros animais, observamos e imitamos os comportamentos até que possamos tomar posse plena deles. Por exemplo, quando vamos dar o primeiro beijo, possivelmente nos espelhamos nas cenas de filmes ou de pessoas próximas, e procuramos disfarçar a inexperiência neste “fake it until you make it”, com toda a naturalidade que os processos de construção implicam. Fingimos que sabemos beijar, até que aprendemos a beijar (rs). E assim é com tudo o mais...


Todos temos modelos que desejamos seguir e que costumam ser, especialmente, nossos pais (menos do que alguns de nós gostaríamos de admitir, ainda que sejamos inconscientes disso). E, assim, vamos experimentando, espelhando e aprendendo cada dia mais sobre nós mesmos.


Neste experimentar, invadimos praias alheias, nos aventuramos em expedições comportamentais novas, experimentamos lugares (de pais, de irmãos, de amigos, de ídolos e de referências culturais). É a criança interior explorando-se em si mesma. Até que se depara com uma fronteira menos receptiva, e começa a receber os contra-ataques do território outro. Então, retrocede um pouco.


Assim, neste ir e vir das construções interiores projetadas mundo afora, entre buscar ser algo novo, apanhar um pouco e retroceder, vamos ampliando fronteiras, quebrando barreiras, criando guerras, celebrando a paz posterior e experimentando as consequências desta atitude tão humana e natural.


Salvadores de plantão: a arrogância extremada de ocupar o lugar do outro


Este ato supremo de arrogar-se a salvar o outro fala dos indivíduos que, por não saberem como salvar a si mesmos, projetam lá fora o que não conseguem – ainda – realizar dentro. Mais um processo natural, ainda que extremamente arrogante.


Então, aos poucos, entre belas descobertas e excessos dolorosos, vamos amadurecendo. A vontade de salvar vai sendo aplacada. E ela dá lugar à paciente observação dos processos da vida e seus caminhos naturais: em si mesmo e no outro.


E a vida, sábia mestra que é, se encarrega de testar novas fronteiras, cada vez mais profundas e perigosas... Sim, seguramente perigosas, pois podem deixar marcas dolorosas enquanto não assumirmos responsabilidade pelas próprias ousadias que foram longe demais ao ocupar o lugar que é do outro.


A criança ferida quer ser (vista, amada). O adulto consciente sabe que é


Quem está no drive deste comportamento usurpador de lugares quando ele vem à tona? Invariavelmente é a criança ferida e cheia de complexos de baixa-estima, ansiando por colo e reconhecimento, aliviando-se de seus recalques e fragilidades.


Entrar em contato com ela é uma fase que não dá para pular. Ainda bem! Afinal, é preciso sentir e atravessar os desertos interiores de raiva, de medo, de abandono e de menos-valia.


Ao longo do caminho, encontramos figuras que nos auxiliam nisso como “bandaids” temporários. No entanto, somente uma Fonte única nos provê de porto seguro constante e definitivo: o adulto interior que está em construção em nós mesmos.


Novos desafios trazem novos aprendizados. Quando chega a hora de uma birra daquelas, quando uma dor forte vem à tona na criança ferida, quanto mais munido este adulto estiver de recursos para saber lidar com crianças em dor e desespero, melhor.


Ele pode ser paciente em meio ao caos da birra.

Ele pode ser amoroso e saber ouvir.

Ele pode saber esperar e deixar escorrer a dor quando ela vem à tona.

Ele pode ser focado e pedagógico para saber a hora em que a birra precisa parar.


Então, quanto mais limites o lado adulto conseguir estabelecer de forma amorosa para esta criança, mais longe ela irá na senda do amadurecimento.


Dor acolhida e criança segura ainda me parecem ser o terreno mais tranquilo para peregrinar nos desertos do inconsciente ferido. De mãos dadas e em conexão: criança e adulto interiores caminham mais leve.


Chega o tempo em que eu só quero o que é meu


No quebra-cabeças da existência, os sistemas se autocompensam por meio de seus próprios indivíduos. Todos cooperam em associação com os demais para equilibrar o todo. Cada peça age e, portanto, importa. Cada um é causa e gera efeito. Tudo faz diferença.


Assim, cada um de nós, sendo a peça mais verdadeira e autêntica que pode, em seu próprio ambiente, cada vez mais consciente e tendo esta visão ampla sobre si e sobre os outros, e sobre o todo, chegará a seu tempo à conclusão do quanto é bom ocupar seu próprio lugar, e nenhum outro.


Verá o quanto esse lugar é leve, é livre, é confortável. Neste fluxo, em conexão com a Fonte, a vida flui com naturalidade. Nem mais nem menos. O meu lugar. A minha voz. Que se compõe deste encontro divino de eus em mim – o infantil (com as necessidades básicas e fundamentais da Terra) e o adulto (com as antevisões da visão ampla, espiritual, que nos inspira a ir além).


Nenhum melhor do que o outro. Ambos juntos, na caminhada natural da vida. A sabedoria de conhecer nossos extremos faz com que eles se toquem, se abracem e possam seguir em frente, em leveza, alegria e harmonia.


(Daniela Migliari, 29 de janeiro de 2020).


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