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Princípios da Justiça Restaurativa Sistêmica adaptados para crianças de 07 a 09 anos.

Por Rinaldo Almeida.


Equilíbrio nas Trocas


Nosso artigo consiste numa situação real que se inicia com o relato da Diretora de uma escola de Fundamental I do Rio de Janeiro. Ela informa que a maioria dos problemas escolares diz respeito à violência utilizada pelas crianças para resolver seus conflitos. Na semana de nossa chegada, uma aluna agrediu violentamente outra, no momento em que esta lhe fez uma gozação. A intensidade da agressão mobilizou toda a escola. Optamos por não abordar diretamente a agressão em nossa dinâmica. As crianças foram colocadas em roda, conforme sua data de nascimento, dos mais velhos para os mais novos.


Como de hábito, mencionamos a importância dos pais na vida das crianças, e no fato deles estarem simbolicamente presentes na escola e na sala de aula. Nesse sentido, pedimos que cada criança se apresentasse e caso desejasse, mencionasse o nome da mãe e do pai. Pedimos que cada criança olhasse as demais na roda e escolhesse uma delas para dizer, uma de cada vez, a seguinte frase significativa para o trabalho: eu vejo você! . Após todas as crianças terem falado e recebido essa frase, elas puderam compartilhar sobre como se sentiram.


Distribuímos papel e lápis e pedimos que cada criança fizesse um desenho de seus pais biológicos para ser afixado na parede da sala. A criança que havia feito a agressão começou a chorar durante essa atividade e teve que ser levada para outra sala, terminando seu desenho num outro dia.


Na semana seguinte, realizamos nossa segunda roda, já tendo os desenhos afixados na parede. Lembramos novamente a presença simbólica dos pais na escola e o fato de todos pertencerem ao grupo com os mesmos deveres e direitos. Pedimos então que as crianças elencassem situações em que se sentiam chateadas pela atitude de um(a) amigo(a). Foram levantadas diversas questões que iam sendo listadas no quadro, tais como implicâncias, apelidos, empurrões, rasteiras, agressões, entre outras.


Criamos a história onde uma criança importunou outra e essa, maior e mais forte, lhe agrediu de maneira desproporcional. Essa situação poderia ocorrer na escola ou mesmo em casa, com um irmãozinho menor. Pedimos que cada criança dissesse como se sentiria após ter agredido com violência outra menor. Aquilo que as crianças iam falando era imediatamente listado no quadro.


O sentimento expresso por todas as crianças era de arrependimento por terem tomado uma atitude exagerada, fruto de o “agressor” estar de cabeça quente. Justamente a criança da agressão real mencionou sentir-se feliz e satisfeita após a agressão.


Essa fala foi listada com naturalidade no quadro junto ao que foi dito pelas outras crianças. Mantendo-se o princípio do não julgamento, não houve uma crítica ao sentimento expresso por essa criança. Ao final, foi enfatizado que todos os outros colegas tiveram uma atitude diferente, no sentido de se arrependerem.


Na terceira semana, contamos uma história na qual as crianças subiam em tapetes mágicos e eram transportadas para um passado distante, na Idade da Pedra, quando todos moravam em cavernas para se protegerem dos grandes animais existentes. As crianças eram convidadas a completar a história explicando o que aconteceria caso alguém daquela tribo resolvesse se afastar dos demais e sair sozinha para procurar comida.


Voltando para o ambiente de nossa escola, propusemos realizar simulações em que um membro do grupo implica com outro, o que poderia gerar uma agressão. Desta feita, falamos na roda sobre estratégias alternativas para resolver esse tipo de conflito. Enfatizamos que o aprendizado na escola consiste não somente em ler e fazer contas, mas também em conviver com os colegas, fazer amigos e demonstrar que consegue se arrepender.


No meio de nossos debates, uma criança fez uma implicância justamente com a criança “agressora” que lhe deu um tapa na frente de todos os colegas. Diante do ocorrido, o facilitador comunicou aos dois que eles não poderiam continuar a participar naquele dia da roda de conversas e que precisavam sair da sala.


Aquele que implicou se retirou, mas a criança “agressora” colocou as mãos na cintura e afirmou: “Eu não vou sair”. Diante dessa atitude inesperada, o facilitador decidiu retirar toda a turma para terminar a dinâmica em outro local, deixando a criança rebelde sozinha na sala. Foi enfatizado que toda atitude gera consequências.


Na quarta e última semana, o facilitador chamou essa mesma criança para uma conversa em separado antes de iniciar a atividade com a turma. Segundo informações da diretora, essa criança tem excelente rendimento e gosta de ajudar os colegas com dificuldades de aprendizagem.


Sabendo disso, o facilitador lhe informou que na atividade do dia todos iriam fazer exercícios de matemática. Quem conseguisse terminar primeiro, poderia ajudar os demais em dificuldades. O facilitador perguntou então se essa criança gostaria de participar.


A criança demonstrou grande interesse, mas foi informada que possivelmente isso não seria possível, pois aquela seria uma atividade para crianças a partir de sete anos, e que ela, apesar de ter nove anos, vinha se comportando como uma criança de três anos: sempre que contrariada, grita, bate e nunca se arrepende.


A criança reagiu de forma surpreendente e emocionada, chorando muito e dizendo que não tinha amigos na escola, que ninguém gostava dela. Depois de tanta rigidez, se abriu uma fresta no coração daquela criança. Acolhemos seu sentimento de abandono e demonstramos como aquela era uma boa oportunidade para reconquistar o afeto dos colegas.


Da forma como ela vinha se portando, todos os colegas a temiam e ela percebia isso. Ao final do choro, informamos a essa criança que a única forma dela participar da roda de conversas daquele dia seria se ela redigisse um bilhete para seus amigos lamentando as reiteradas agressões e o comportamento reprovável no último encontro.


Para nossa alegria, ela não só redigiu um bilhete, como fez questão de ler para os colegas aos prantos. “__nome__, desculpa. Eu não queria te bater. Você é a minha melhor ex-amiga. Você quer ser de novo? Turma, desculpa por tudo isso que eu andei fazendo. Querem ser meus amigos de novo? Amo todos vocês.” Todos a aplaudiram emocionados e ao mesmo tempo surpresos com essa nova atitude. Ela era conhecida na escola por nunca se arrepender após as agressões.


Vale aqui um esclarecimento sobre o que seja a Justiça Restaurativa Sistêmica, fonte de inspiração para nosso trabalho nas escolas. A forma mais frequente de resolver conflitos visa encontrar o culpado e dar-lhe uma punição, para que ele não repita tal comportamento.

Justiça Restaurativa é uma técnica diferente e inovadora de solucionar conflitos. Não se perdoa o “agressor”, ele precisa receber uma consequência por sua atitude, mas se busca simultaneamente reconstruir a relação entre o “agressor” e a “vítima”.


Numa escola tradicional, a punição para a criança que agrediu poderia ser a suspensão por alguns dias. O problema que se observa na prática é que essa criança volta e normalmente agride de novo. Para evitar isso, ela precisa se responsabilizar pelas consequências de seus atos, gerar uma compensação, para assim buscar a reconciliação com a “vítima”.


Esse é o motivo pelo qual pedimos que a criança “agressora” em nosso exemplo fizesse um texto lamentando o ocorrido. Nosso trabalho busca aprofundar esta metodologia de uma forma sistêmica, com base nos ensinamentos do alemão Bert Hellinger. Num conflito, todo o sistema envolvido deve ser analisado Em agressões violentas como a dessa escola, a “vítima” não é somente quem apanhou, toda a turma se sentiu ameaçada com a agressão. Por isso a necessidade do bilhete ser lido para todos.


Relembramos também a corresponsabilidade da comunidade, pois uma atitude ‘agressiva’ na verdade reflete muito mais do que as duas partes envolvidas, e faz com que todo o sistema se reavalie. As famílias das crianças fazem parte do sistema maior e precisam ser olhadas com carinho e atenção.

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