SABER LIDAR COM O TÉRMINO DOS PAIS, ABRE CAMINHO PARA EU VIVER MINHAS PRÓPRIAS RELAÇÕES.

Por Daniela Migliare.


Num relacionamento, quando alguém quer terminar e ir embora, a porção adulta do outro parceiro pode se beneficiar da postura de reconhecer a necessidade profunda deste ir embora.


Em geral, neste lugar, muitos dizem: "Fui abandonado".


Também é possível dizer: "Esta pessoa *precisou* ir embora".


Perceber a si mesmo e ao outro como adultos, com plena soberania de ação, traz inteireza e capacidade para lidar com a nova condição:


"Eu reconheço e respeito que você precisou ir embora. Eu reconheço, também, que isso me causa imensa dor. Também posso ver o quanto isso te custa, sei que você também sente este término de muitas maneiras".


Uma psiquê adulta tem condições de seguir dizendo:


"Agora, posso agradecer pelo tempo e pela experiência que vivemos juntos. Sempre levarei esta experiência em meu coração. Então, de alguma forma, o que vivemos segue sempre comigo!"


Diante da separação dos pais, alguns filhos ficam bravos porque estes se separaram.

Outros, ficam bravos ao verem um dos pais ficar viúvo e encontrar um novo companheiro pouco (ou muito) tempo depois.


NA VIUVEZ DOS PAIS


Ante às resistências das crianças feridas em nós, surgem perguntas que são frutos da realidade, no caso da morte de um dos pais:


Você prefere que seu pai siga sua mãe na morte?


Você prefere que sua mãe siga seu pai na morte?


Afinal, ficar sozinho e sem estímulos é o caminho mais rápido pra isso.


É importante atravessar o sentimento de dor inicial, o luto necessário.


E, então, um pouco mais adiante, abrir-se para a nova situação e perceber o lado bom de seu pai ou sua mãe terem escolhido viver e seguir se relacionando com alguém, dando-se o direito e a alegria do prazer a dois.


Olhar pra isso traz uma força incrível: é ver ele ou ela dizerem “Sim” pra vida. A aceitação deste SIM facilita que todos possam seguir adiante com gratidão à relação do cônjuge que morreu, honrando tudo o que foi e com os vínculos anteriores bem localizados no coração.

E os filhos podem se orgulhar desta ânsia de viver e se inspirar nisso pra seguir as próprias vidas - com o mesmo vigor ou mais.


NA SEPARAÇÃO DOS PAIS


Processo similar acontece na separação dos pais.


Filhos realmente podem opinar sobre seus pais ficarem ou não numa relação pesada e infeliz?


Nós filhos ficamos com raiva do término dos pais, julgando a mãe namoradeira ou julgando o pai namoradeiro. Isso quando temos sorte, porque existem pais que desistem de ter relações e ficam se suprindo emocionalmente dos filhos. Quanto peso!


Agora, vêm perguntas importantes:


Tem algo melhor do que um momento de sexo e intimidade profundos nesta vida?


Ou de viver um companheirismo tranquilo, numa idade já avançada?


Por que os pais deveriam desistir de viver essas alegrias após uma separação ou uma viuvez?


Deveriam desistir de si mesmos simplesmente pra satisfazer o ego infantil da nossa criança ferida, que vive em função de conciliar uma relação totalmente fora de sua alçada?


OLHAR PARA OS NOVOS COMPANHEIROS DOS PAIS E AGRADECER


Que tal agradecer aos companheiros - sejam únicos ou sejam muitos - de sua mãe por serem quem a mantém ativa, feliz e com alegria de viver?


Que tal agradecer às companheiras - sejam únicas ou sejam muitas - de seu pai por serem quem o mantém ativo, feliz e com alegria de viver?


Queridos homens de minha mãe,


Queridas mulheres de meu pai,


Eu agradeço por proporcionarem a ela (ele) estímulos e alegrias de vida. Agora posso ver o quanto isso a mantém feliz e livre. Vejo, também, o quanto isso tira tantos pesos de mim enquanto filha(o)!