Semana Santa: Domingo de Ramos

Semana Santa: Domingo de Ramos

Unindo a Antroposofia, Rudolf Steiner, e Familienstellen, Bert Hellinger


Por Amauri Moreira*


A semana santa é uma semana especial no movimento cristão, o Teólogo Emil Bock (1895 – 1959) em um capítulo de seu livro intitulado “Os Três Anos” afirma que “os sete dias que precedem a Páscoa podem ser comparados às doze noites santas do período natalino”. Emil Bock foi um dos maiores impulsionadores da renovação da Teologia através da Ciência Espiritual desenvolvida por Rudolf Steiner.


E a Semana Santa começa com o Domingo de Ramos, quando o Cristo entra na cidade Santa de Jerusalém montado em um burrico. A palavra que melhor representa o estado da alma das pessoas nessa entrada é ENTUSIASMO.


É muito interessante olhar a formação grega dessa palavra (in+theos) literalmente “Em Deus” que na sua origem significava inspiração por uma entidade divina ou pela presença de Deus. E as pessoas naquela entrada estavam entusiasmadas saudando Jesus Cristo com ramos de palmeiras que representavam o próprio Sol natural das antigas festas pagãs pré-cristãs, um estado de júbilo e êxtase.


Esse entusiasmo é importante na nossa vida, nos impulsiona no movimento de realizar, contudo o Cristo sabia que aquele entusiasmo era superficial, voltado ao externo, por isso facilmente seria transferido para outro estímulo sem criar raízes que poderiam sustentar a árvore da espiritualidade, seriam como folhas ao vento, sendo levadas de um lado ao outro sem consciência, algo que podemos notar ainda nos dias de hoje nas polarizações e opiniões expressas que repetem um discurso sem consciência do que se diz.


Cristo vêm para adentrar uma camada mais profunda da alma humana que passará a reconhecer além desse Sol Natural Externo essencial, presente na natureza para a própria manutenção da vida e o contemplar do ser-humano, um nascimento espiritual do ser-humano que pode encontrar o Sol Espiritual Interior dentro dele mesmo, então a árvore da espiritualidade se estrutura com raízes na consciência e com isso pode se desenvolver no sentido do estado centrado que não se abala com as intempéries externas por mais assustadoras que sejam, porque sabe que é uma centelha divina que pode integrar a força Crística dentro do seu coração e expressá-la no seu pensar, no seu agir, na sua emoção e sentimento através da força, da luz e do amor espiritual. Assim cumpre a sua missão.


Essa é a grande mudança e transformação que a Semana Santa nos convida a vivenciar e realizar, da mudança do velho sol externo no domingo de Ramos para o novo Sol que vem na ressureição no domingo de Páscoa.


Um sol que percebemos “nascer na aurora e se por no poente” pela nossa localização terrestre, agora é percebido como um brilho eterno desse sol que está dentro de cada pessoa. Perceber o ENTUSIAMO ENDÓGENO que brota sendo o Divino dentro do ser-humano e não só EXÓGENO, do Divino na natureza externa. É um caminho de união e unidade entre interno e externo, que inclui a tudo com amor.


Bert Hellinger, criador da Constelação Familiar (Familienstellen no seu termo original em alemão) e que foi sacerdote e missionário da igreja de 1946 a 1969, apreciava muito o poeta Rainer Maria Rilke, tanto que em seu livro “Viagens Interiores” para falar do “trabalho do coração” traz alguns versos de um poema de Rilke chamado “Mudança”:


Veja, a contemplação tem um limite,

pois o mundo contemplado

quer florescer no amor.


O trabalho da face já foi feito,

Faça agora o trabalho do coração.


Em diversos momentos no trabalho da Constelação Familiar, que pode ser definido como uma filosofia prática de ajuda à vida com base no amor, Bert Hellinger traz conceitos para a idéia do transitório, ou seja, algo que fica velho e precisa morrer quando chega no seu limite, assim abre espaço para o novo que vem ampliar e seguir o movimento de crescimento, e seu futuro estará presente nesse novo que surge; nessa morte ele pode permanecer de uma forma distinta presente na história do que vem depois dele, que é a própria evolução.


A essência dessa ideia ressoa em harmonia com a postura do Cristo no domingo de Ramos, onde Ele em silêncio passa pela multidão enquanto esta o saudava com gritos de Hosana (uma aclamação semelhante ao Viva dos dias atuais). Cristo vem montando um humilde burrico e sabe que já está apresentando a transição do “velho” para o “novo”, em um movimento que reconhece o valor do passado, mas sabe que esse não é eterno, assim não impede a manifestação das pessoas, mas se coloca centrado e aberto para algo maior do qual já tem conhecimento que está em curso.


Em Familienstellen seria a postura fenomenológica que Bert Hellinger traz como base, onde nos abrimos permitindo que algo se revele, algo talvez inesperado (e os acontecimentos da Semana Santa são inesperados e plenos de significado) e com a força do amor, tão grandioso que pode ser chamado de milagre pois o ser-humano pode ter a gratidão ao perceber esse movimento mesmo sem ter a compreensão total da sua abrangência, assim o denomina “milagre”, porém assim como o burrico o ser-humano também pode, se quiser, permanecer humilde e ser instrumento de uma Força, de Uma Consciência, de uma Luz bem Maior.


Bert Hellinger ensina na Constelação Familiar uma Ordem do Amor de nome Pertencimento, que explica que todos tem o direito de pertencer e nesse pertencimento vale citar uma compreensão de religião e força espiritual extraída do seu livro “O Amor do Espírito”


“Em seu sentido original, a religião se refere ao vínculo pessoal que estabelecemos com as forças espirituais que nos sustentam, pelas quais nos sentimos guiados e sustentados. Desejamos entrar em sintonia com os seus movimentos, pois sentimos que a nossa existência se baseia nessas forças espirituais, que nossos movimentos mais íntimos são orientados por elas e apenas nelas alcançam paz. Essa religião pessoal é um movimento profundamente espiritual”


Assim a ressurreição no domingo pascal não é do corpo material e sim do renascer espiritual que pode acontecer aqui e agora, no presente, no renascer do movimento da vida.


*Amauri Moreira é comunicador social formado pela ECA-USP

Facilitador de Familienstellen e Multiplicador da Hellinger Schule-Faculdade Innovare

Pai de duas crianças que estudam na Escola Livre Areté, fundamentada na Pedagogia Antroposófica


Bibliografia:

Os acontecimentos da Semana Santa – Emil Bock

Viagens Interiores – Bert Hellinger

O Amor do Espírito na Hellinger Sciencia – Bert Hellinger







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