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TODOS PERTENCEMOS.

Por Daniela Migliari.


Com diversas compreensões possíveis, as parábolas têm o poder incrível de atravessar os séculos e milênios, e ainda assim manterem-se profundamente efetivas. Suas percepções são diversas a um ponto tal, que me arriscaria a dizer que têm poderes muldimensionais: uma vez que nos transportam a diferentes vieses e interpretações mais e mais profundas. A cada vez que as lemos e sobre elas dialogamos, vamos mais e mais além.  Dentre as parábolas inesquecíveis de Jesus Cristo, sempre me chama imensa atenção a da ovelha perdida*. Nela, resumidamente, o mestre assevera que, do rebanho, nenhuma só ovelha será perdida. No meu coração, a compreensão atual desta passagem fala de um pastor que, no mais fundo de sua alma, comprometeu-se a não entregar-se à condenação do outro, excluindo-o de sua vida. Jesus sabia que perante a Misericórdia Divina, todos e cada um têm o direito a pertencer. E que a Vida e Deus encontram sempre a forma certa de ensinar e fazer o amor florescer. Em suas palavras, Jesus transparece confiar nisso integralmente.  Num mundo com tantas situações adversas, sabemos que alcançar este lugar é bastante complexo. Na perspectiva transpessoal e transgeracional, é certamente obra de milênios. Afinal, como dar lugar a um político ladrão, a despeito de parecer zombar de sua missão ao zelar pelo bem coletivo do país? E de uma esposa ou marido que trai o cônjuge e vai embora, deixando os filhos? E, ainda, como incluir um assassino que nos leva alguém amado?  Este assunto não é fácil, mas como falar desses temas – por sua vez “excluídos” – faz parte da minha devoção pessoal, quero muito tratar desse reflexo quase que automático que temos em nossas vidas: excluímos diversas pessoas ao longo de nossa caminhada, nas pequenas e nas grandes dores. E isso tem consequências. QUEBRA-CABEÇAS DA EXISTÊNCIA Recentemente, uma imagem auxiliou-me a compreender a proposta de Jesus. Minha filha disse que queria fazer um presente para os amigos: pegar peças de um quebra-cabeças, pintá-las de uma determinada cor e pendurá-las num colar, mostrando o encaixe daquela amizade para os amigos. Fiquei extremamente tocada e pensativa na mensagem que essa figura desperta em mim...  Quando nos deparamos com um quebra-cabeças e nele falta uma só peça que seja, ficamos incomodados. A imagem não se completa. A despeito de todas as cores e imagens, o olhar teima em ir para aquele pequeno e muito significativo vazio. É como se o quebra-cabeças perdesse a graça, não dá para perder uma só peça que seja.  O conjunto fica sem graça. Todas as partes compõem o lindo mosaico da vida, com suas cores, perfumes, diversidade e variedade. Lembrei das ovelhas de Jesus e, na mesma hora, O compreendi um tantinho mais. Toda vez que excluímos alguém de nossas vidas e de nossos círculos, seja ele familiar, social, histórico, coletivo, etc, fica um vazio. E não me refiro aos casos pacíficos, em que a distância naturalmente leva cada um para seu caminho na vida. Falo daqueles eventos traumáticos, tristes, violentos, doloridos.  No estudo das constelações familiares, Bert Hellinger propõe que olhemos para nosso sistema e possamos identificar justamente as exclusões que causam dor e consequências nefastas em nosso dia a dia. Há tanto tempo afastadas, quando tais presenças são novamente incluídas, recobramos a paz interior. Se a exclusão envolver pai e mãe, então, isso significa nos desconectarmos da Fonte da Vida, e de toda a prosperidade pessoal, material, criativa e de realizações que dela provém. Este é um assunto que se desdobra em outros tantos mil. Em todos eles, no entanto, um fator constante sempre se mantém: quando excluímos, empobrecemos a NOSSA própria vida. COMPREENSÃO QUE INCLUI Na caminhada natural e evolutiva em busca do autodescobrimento enquanto indivíduo, o ser passa pelo natural estágio de vivenciar o egoísmo. Num passado não muito distante, vivemos em cavernas quase como bichos. O homem teve no egoísmo um elemento de sobrevivência, que lhe garantia a refeição do dia, por exemplo.  O egoísmo nos auxiliou a distinguirmo-nos do grupo e percebermo-nos como seres individuais, com necessidades a serem atendidas. Fez parte de nossa caminhada e, enquanto crianças, ainda o vivenciamos como parte fundamental do desenvolvimento da psique para nos distinguirmos dos demais. Um pouco mais adiante, percebemos que, a despeito de precisar atender nossas demandas por sobrevivência, somos seres gregários, e nos beneficiamos da convivência com outros indivíduos. Cai a ficha de que juntos somos mais fortes! A seguir, vem o estágio em que quase todos nos encontramos: convivemos bem com nossos eleitos e familiares, desde que estes não transgridam os acordos do grupo. Basta alguém discordar da nossa forma de ser, fazer diferente, pensar de outra forma, que já ficamos incomodados e... excluímos. Desta maneira, perdemos tremendamente o acesso à riqueza da diversidade, e essa perda – de alguma forma – também ensina sempre. Até que a compreensão finalmente floresce. A RIQUEZA DA DIVERSIDADE Neste encontro com o diverso é que enriquecemos e somos convidados a conhecer outros pontos de vista. É na discordância, especialmente dentro de casa, que desenvolvemos aptidões para desenvolver profundo respeito ao tempo evolutivo dos demais. Tempo este nem melhor, nem pior: apenas diferente! Muitas vezes fazemos essas divisões porque, no desenvolvimento de nossa auto-estima, ainda precisamos nos sentir acima (ou abaixo) dos outros. A compreensão da nossa infância espiritual, nos permite sermos compreensivos conosco mesmos, e transbordar este entendimento aos demais. Cada um, a seu tempo, exposto às lições práticas da Mãe-Vida, compreenderá as Ordens do Pai-Amor. Exigir que isso seja feito à fórceps, à nossa maneira, no nosso tempo, é contraproducente e inexequível.  O melhor caminho para levar essa postura para a vida prática? Entregar-se às delícias do abraço à sombra, percebendo que nossas limitações guardam nossos maiores mapas do tesouro. É lá que precisamos encontrar nossas partes que precisam amadurecer, para chegarmos ao porto-seguro da autorresponsabilidade.  Quando estamos focados em nossos próprios processos, observando o tempo dos outros com respeito e, por que não, encantamento, ainda que cheio de falhas, humanidades e “aindas”, transcendemos o lugar infantil – mas normal, esperado e que faz parte – de somente exigir as coisas à nossa maneira. Todos pertencem, todos são importantes. E cada um, no seu próprio tempo e ritmo, alcançará o estágio em que um profundo amor pela diversidade se expressará como o mais rico, vasto, colorido, unificado e belo Jardim da Unidade.



(Daniela Migliari, São Paulo, 25 de maio de 2017) *A parábola da ovelha perdida está citada em dois evangelhos: Matheus 18, 10-14 e em Lucas 15, 1-7.

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