Violência Contemporânea: reflexões sobre a banalização dos dias atuais.

Por René Schubert.


Pensei em abordar um texto que falasse sobre a violência contemporânea ligada à tendência de justificá-la nas doenças mentais ou drogas. Tema vasto e complexo que não tenho a pretensão de esclarecer em tão breve artigo, mas para o qual posso pincelar algumas informações e levantar algumas questões. Trarei certos dados sobre a doença mental e drogas mas não ficarei centralizado nestas, pois acredito que a violência que vivemos atualmente é um movimento social e não só um fenômeno isolado de um determinado grupo "desviante".


Uma das características preocupantes de nossa sociedade atual não é a violência em si, visto que esta sempre existiu, mas seu aumento gradual aliado à uma banalização absurda das ocorrências. Hoje em dia, encaramos muitas vezes uma chacina, um assalto em semáforo resultando em morte ou atentado terrorista por parte de traficantes à algum estabelecimento comercial como notícias corriqueiras – se tornou "normal", coisas do dia a dia. Tal comportamento frio que muitas vezes pode representar uma defesa contra a angústia que tais notícias geram em nós, pode também ocasionar um estado perigoso e desumano frente aos acontecimentos diários: a indiferença.


A indiferença, como um estado passivo e desinteressado impossibilita questionamentos, reflexões e a tentativa e possibilidade de mudança. Aceitam-se as coisas como elas são e se segue adiante. Nada mais nos choca – os índices de violência aumentando, as pessoas se matando, mas enquanto não me atingir diretamente tudo bem! Não nos importamos, pois não há tempo para isto, não nos envergonhamos, pois não nos afetamos mais por isto…"la belle indiferance".


O mais importante neste momento é exatamente o contrário, a postura ativa, problematizadora, que busca dar consequência aos movimentos culturais-sociais – que busca entender uma chacina, ou crime serial não só como um evento isolado, mas como um fenômeno de nossa cultura. Se o mundo lá fora está violento não é por que não carrego uma arma ou me mantenho trancado em casa que eu não tenha também responsabilidade frente à tal movimento social. Como irei lidar com isso? Quais as consequências de meus atos isolados sobre o meio em que vivo? Estou e/ou estamos fazendo bom uso de nossa cidadania? Qual minha postura ética frente às manifestações atuais de violência?


A violência em si está banalizada, mas é a violência daquele que é igual a mim, "normal", que está chocando e movimentando o sensacionalismo televisivo e a busca por respostas em todos os meios de conhecimento. É o filho que assassina o pai ou o fato deste abusar e matar sua filha, filho e esposa que está nos apavorando. É a violência dentro de casa e nas instituições culturalmente mais sagradas e valorizadas da sociedade que mostram que algo não vai bem e para esse mal-estar temos dado respostas antigas. As três justificativas mais usadas para esclarecer a violência são: drogas, doença mental ou possessão demoníaca. Mas será que podemos aplicar tais respostas à cultura contemporânea?


É comumente conhecido que a questão do crime e da violência envolve uma série de reflexões e comentários que ultrapassam em muito o ato violento em si; são questões que resvalam na ética e na moral de nossa sociedade. Sempre há alguém tentando ajustar ao criminoso e à manifestação violenta, traços e características psicopatológicas, anormais: porque X cometeu esse crime? Estaria perturbado psiquicamente? Como foi sua infância, será que foi abusado pelos pais? Estaria sofrendo com a pressão social? Será que tem cura? Como mantê-lo afastado de nós, pessoas "normais"?


As questões são diversas e as respostas vagas e incompletas (tal como o próprio Ser Humano o é). Como nos coloca Ballone (2002) "a respeito dos recentes conhecimentos da neurociência, a maioria das pesquisas ou não encontrou uma associação entre doença mental e o risco de cometer crimes de violência maior que na população geral, ou encontrou apenas uma discreta associação, estatisticamente não significativa".


Alguns quadros psiquiátricos costumam chamar a atenção da sociedade, quando envolvidos em crimes graves que invariavelmente chocam as pessoas por seus requintes de sadismo e crueldade. Apresentar-se-ão brevemente alguns dos quadros mais comuns, deixando claro que o fato de ser um doente mental não acarreta necessariamente comportamentos criminosos ou antissociais, mas muitas vezes na busca de resposta para crimes usa-se do diagnóstico clínico para justificar os mesmos.


Muito já se ouviu nos meios de comunicação sobre a psicose – ela inclusive foi alvo de um dos mais conhecidos filmes de suspense de Alfred Hitchcock (filme "Psicose"). Um dos sintomas mais exuberantes e característico da mesma é o delírio. Em muitos quadros psicóticos, encontramos acentuado traço de desconfiança, ressentimento, frigidez no relacionamento interpessoal e busca de isolamento social. Os delírios nas psicoses são normalmente de cunho persecutório, ou seja, giram em torno de uma temática de prejuízo, perseguição e referência à pessoa do paciente, sendo também sistematizados e bem organizados. A ideia de referência condiz com a impressão de que ele é observado, é perseguido por complôs misteriosos, é predestinado a executar um plano de salvação da humanidade, ele detém a capacidade de percepção extra-sensorial, é o mais prejudicado, etc. Assim, o psicótico edifica sua realidade particular e assume neste seu mundo uma posição central servindo de referência aos eventos que se sucedem. Pode-se ter boa ideia do que é isso com o filme "Mente Brilhante"(dirigido por Ron Howard).


As manifestações de agressividade do psicótico, ainda que incomuns, têm para ele um caráter defensivo, contra um sistema que deseja prejudicá-lo, influir sobre ele, roubar seu pensamento, matá-lo através de influências estranhas. Assim, comete crimes ou é agressivo reagindo a um sistema delirante criado por ele mesmo, o que mostra a dificuldade de adaptação do mesmo com a realidade externa. Ele interage por intermédio de sua realidade interna, ignorando ou percebendo de maneira precária a realidade externa.


As primeiras crises psicóticas costumam apresentar-se logo na adolescência, quando os principais sintomas tais como, alucinações, desconfiança excessiva, isolamento social, dificuldade de relacionamento, humor alterado se intensificam. Atualmente, tais quadros têm bom prognóstico com o uso de medicações psicofarmacológicas (ex: ansiolíticos e anti-psicóticos) e acompanhamento psicoterapêutico (grupos psicológicos, psicanálise, orientação familiar).


Agora um quadro mais comumente aliado à crimes e violência é o da Psicopatia. Grande proporção, em torno de 25% dos prisioneiros, mostra muitas características do que a psiquiatria chama de Sociopatia. (Transtorno da Personalidade Antissocial).


As características dos sociopatas engloba, principalmente, o desprezo pelas obrigações sociais e a falta de consideração com os sentimentos dos outros. Eles possuem egoísmo exageradamente patológico, emoções superficiais, teatrais e falsas, pobre ou nenhum controle da impulsividade, baixa tolerância para frustração, irresponsabilidade e o que torna o quadro mais difícil de ser tratado é a ausência de sentimentos de remorso e de culpa em relação ao seu comportamento.


Tais pessoas geralmente são cínicas, incapazes de manter uma relação leal e duradoura, são muito manipuladoras. Mentem exageradamente, roubam, abusam, trapaceiam, manipulam dolosamente seus familiares e parentes, colocam em risco a vida de outras pessoas – esse conjunto de caracteres faz com que os sociopatas sejam incapazes de aprender com a punição ou incapazes de modificar suas atitudes.


Devido ao fato de não demonstrarem sintomas de outras doenças mentais quaisquer é difícil esse tipo de população buscar ajuda psiquiátrica-psicológica ou ser encaminhado para tais serviços. Muitas vezes tal indivíduo só é desmascarado ou descoberto após ter realizado atos criminosos.


Segundo o DSM. IV, a característica essencial do Transtorno da Personalidade Antissocial é um padrão invasivo de desrespeito e violação dos direitos dos outros, que inicia na infância ou começo da adolescência e continua na idade adulta.


Existe uma vertente da psicanálise que acredita no tratamento analítico desta população e alguns trabalhos deste tipo já mostraram resultados positivos, mas mesmo assim é um quadro de difícil acesso e tratamento – na maioria das vezes são presos e mantidos isolados para não causarem prejuízo inclusive dentro do próprio sistema penitenciário. Um livro que retrata com precisão o quadro da psicopatia ou sociopatia é "Silêncio dos Inocentes" de Thomas Harris que deu origem a dois filmes de Hollywood sobre o personagem Hannibal Lecter.


Quanto ao uso de drogas relacionado à violência e agressividade temos um excelente exemplo no recente filme "Carandiru" (adaptação do livro de Drauzio Varella ), no qual um dos personagens, chefe de cela e também traficante começa a fazer uso constante de "crack". Na sequência, o filme mostra como tal uso vai afetando o personagem, que começa a sentir-se perseguido por alguém (a conhecida "noia" – sintomas de paranoia; a pessoa começa a ficar extremamente desconfiada e desenvolve pensamentos de que querem prejudicá-la, passa então a atuar em seu meio de acordo com suas fantasias, se estas forem agressivas ele reagirá agressivamente frente ao seu meio externo). As consequências de tal sintoma são desastrosas para o personagem. Tal história pode facilmente se aplicar aos usuários constantes de drogas como álcool, cocaína, crack entre outras.


A droga em seu abuso afeta não só fisicamente o usuário que se torna dependente químico, como também o desequilibra psicologicamente. Poderíamos superficialmente citar certos sintomas frequentes do uso abusivo de drogas: alteração de humor, sintomas físicos como febre e mal-estar quando se está em abstinência, dificuldade no relacionamento com as pessoas, tendência à hostilidade, diminuição na atenção e muitas vezes alteração na percepção da realidade. A droga na maioria das vezes atua deixando seu usuário mais à vontade e muitas vezes sem limites, acentuadas características primitivas e hostis de sua personalidade.


Sabemos em nosso dia a dia como a droga tomou conta e se tornou parte de nossa cultura, contribuindo inclusive para os altos índices de violên