Visão à luz do Direito Sistêmico

Por Adriana Batista.


Uma querida amiga solicitou-me uma visão à luz do Direito Sistêmico:


“Baseado nessa mensagem que ouvi da Sophie num membership em 2016, como fica quando entramos na justiça para cobrar um dinheiro, divisão dos bens, pagamento de pensão, reconhecimento da paternidade...?”


Minha resposta:


Prezada amiga,

Em primeiro lugar, muito grata pela oportunidade desta reflexão.


A Sophie, bem como o Bert e os grandes filósofos, vêm além, o essencial. Então podemos olhar para essa frase como um Norte a ser perseguido e incluir tudo o mais. Às vezes, uma pessoa não é capaz de abrir mão de uma disputa por dinheiro porque ele está simbolizando algo para ela. O dinheiro pode ser um substituto para aquilo que faltou na relação. Ou ainda, simbolizar algo importante dentro do sistema da pessoa (uma escassez, uma crença limitante), que, talvez por lealdade cega, ainda não possa abrir mão. No entanto, quando a pessoa é capaz de abandonar a disputa, a vida pode presentear-lhe com algo maior: leveza e liberdade, por exemplo, ou até algo material.


Você conhece alguma história na qual alguém recebeu uma grande quantia após uma longa disputa e depois adoeceu? Ou o dinheiro rapidamente acabou? Isso não é raro.


Então, como não existem respostas fechadas, te conto duas histórias.


1-Uma amiga decidiu separar-se do marido e pai de seus filhos (menores, com direito a pensão). Ela, assalariada, e ele, empresário, dono de vários imóveis. Em princípio, ele disse que não queria o divórcio, portanto, não concordava com a partilha dos bens, nem com o pagamento de pensão. Em nome do seu objetivo (o divórcio) ela abriu mão da disputa e aceitou a condição. Sabe o que ocorreu? A Advogada dele propôs um acordo no qual abririam mão da pensão, mas ela ficaria na casa com as crianças e ele arcaria com a educação e a saúde delas (aquilo que realmente pesa no orçamento). No final, ficou melhor do que a pensão! Ela chamou de sorte, eu chamo merecimento.


2- No interior de Minas, havia um casal de agricultores que tinha 4 filhos: 3 trabalhavam com as terras da família e um era músico. Quando os pais morreram, os 3 que trabalhavam com agricultura resolveram não fazer a partilha da propriedade em 4 partes iguais, e deixaram para o irmã músico um alto morro infértil. Em vez de brigar, disse aos irmãos algo do tipo: “-Nossos pais não gostariam de ver o que vocês estão fazendo, porque todos nós quatro somos filhos e nisso somos iguais. Mas eu vou aceitar minha parte, porque papai gostava de subir nesse morro para pensar e contemplar. E quando tiver saudade dos nossos pais, eu também subirei lá.” E assim foi encerrada a partilha. Pouco tempo depois, uma operadora de telefonia móvel chegou à cidade e em acordo com o músico, instalou no morro dele uma antena, pagando por isso uma rica mensalidade.


Diante dessas duas histórias eu pergunto. Se os protagonistas brigassem pelo dinheiro, ficariam mais leves ou pesados?


Seguiriam mais felizes ou infelizes?


Teriam mais ou menos êxito?


Mais ou menos alma?


Muitas vezes o dinheiro entra no lugar de um reconhecimento, uma reverência, um “sinto muito”, que se espera da outra parte. Então também está a serviço do equilíbrio. Porém, se ambas (ou uma das partes) podem olhar para o que está por trás do dinheiro, podem pacificar para a vida.


Ainda gostaria de acrescentar algo em relação a maridos divorciados que têm atitudes duras e brigam para não pagar pensão alimentícia.


Nós, profissionais sistêmicos, somos também um pouco detetives, porque nosso papel diante de um conflito é, dentre outros, buscar para onde olha o amor dos envolvidos.


Portanto, também coloco esses homens no meu coração, olho para a dor deles e me pergunto: a quem estão sendo fiéis? Para onde olha o amor deles? A serviço de que estão destruindo suas próprias relações?


Quando coloco todos os envolvidos no conflito, dentro do meu coração, posso olhar para algo maior que os uniu naquela dinâmica e ter em vista a possibilidade de paz entre eles. Quando cada um reconhece no outro a dor e o amor que os captura, pode dar uma chance à paz. Olhando bem de perto, todos nós somos apenas humanos, com belezas e fraquezas. Reconhecer o humano no outro é curativo.


A máxima do Direito Sistêmico é: “Uma sentença (transitada em julgado) encerra um processo, mas não um conflito.” Estamos a serviço da pacificação das famílias para além do processo.


Adriana Batista - Experiência Sistêmica

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